Evangelho: A Verdade por Trás dos Mitos

Venha olhar de perto o que toda a religiosidade não revela. Leia com atenção e tire suas próprias conclusões. A partir deste conhecimento sua fé pode aumentar em níveis nunca esperados por você, ou… Se não for deste modo, talvez seja necessário rever os conceitos nos quais você fundamentou sua crença e reencontrar o Evangelho de Jesus.

Você que provavelmente tenha sido criado num lar cristão , deve estar familiarizado com os conceitos básicos do evangelho. Exemplo; Qual o significado da palavra “Evangelho”? Sua origem vem do idioma grego. Significa “boa mensagem”, “boa notícia” ou “boas-novas”, derivando da palavra grega e?a???????, euangelion (eu, bom, -angelion, mensagem). Deve saber também que são ainda, relatos da vida, da obra e do Ministério de Jesus em sua passagem pela Terra, há quase dois mil anos. Mas o que esses livros escondem? Qual a história que cerca o relato da vida de Jesus que embora seja o pilar da religião com mais adeptos no mundo, são fatos tão desconhecidos?

 

Foto: Jerusalém.
Foto: Jerusalém.

Cânon:

Para podermos falar de evangelho, como é ensinado pela igreja tradicional, antes precisamos falar de Cânon. O que também pode ser dito como Cânon Bíblico, tem origens na antiguidade. Um “Cânon” é uma cana de medir, uma espécie de régua, usada para fazer uma medida. A palavra foi emprestada para qualificar se um texto tinha as devidas “proporções” de um livro verdadeiramente sagrado. Basicamente, o Cânone deveria conter todos e os únicos, livros inspirados pelo Espírito de Deus. Hoje, você tem acesso a uma Bíblia pronta, com 66 livros diferentes que foram anexados num só. São 1189 capítulos, 31.102  versículos, 773.693 palavras e 3.566.480 letras. Mas está pronta. Como ela chegou até aqui? Quais caminhos esses textos milenares percorreram para estarem em suas mãos hoje? Você de fato já se fez essa pergunta? Você, caso seja um devoto mais literal, chama a Bíblia pelo nome generalista que presume a fé em duas palavras e uma preposição. “A Palavra de Deus”. E é esse o sentido que a expressão Cânon tenta transmitir.

 

Contextualizando:

Imagem dramatizada de "O Concílio de Niceia" (325dc.)
Imagem dramatizada de “O Concílio de Niceia” (325dc.)

É de fato impossível para o Cristão atualmente viver o cristianismo sem o apoio da Bíblia. Mas nos primórdios do cristianismo, os primeiros adeptos da nova religião não tinham Bíblias. As pregações eram feitas oralmente pelos discípulos que conviveram com Cristo, e posteriormente com os discípulos doutrinados por eles. A ideia de escreverem em texto tudo que se referia ao Messias, surgiu para auxiliar na evangelização e talvez, para alinhar os discursos. Com o tempo, a fé do povo cristão arrastava multidões. E a presença deles tornou-se perceptível não somente aos líderes religiosos no Império, mas para seus líderes políticos. Começando assim a famosa perseguição sofrida pelos cristãos. A doutrina pregada pelos primeiros cristãos parecia de fato contrária, não só à religião oficial de Roma, mas também ao Governo. Ela falava de um Rei que era maior que o Império e um deus que era maior que os deuses Romanos. Além de ser encarado por eles como uma afronta, os Romanos ainda viam essas pessoas aumentarem em tamanho e em força. Cabia-se uma atitude para controlá-los.

Mas se você conhece bem o ser humano, deve imaginar que os primeiros Cristãos convertidos, tinham as mesmas dificuldades que uma pessoa que nunca ouviu falar do cristianismo antes, teria. Muito de sua fé antiga é carregada consigo. E alguns, fanáticos, levam seu fanatismo para sua nova doutrina. Um dos fatos que tornaram o cristianismo uma ameaça aos interesses de Roma, não foi que eles passaram a  acreditar que devessem assumir sua posição de demônios e iniciarem uma chacina de cristãos para satisfazer ao diabo. Embora existam alguns  ingênuos que pensam exatamente assim. A comunidade religiosa emergente do cristianismo  cresceu, e  eles inevitavelmente estavam por toda parte. Passaram a  ocupar a sociedade romana em absolutamente cada uma das esferas. Estavam entre os cidadãos, entre soldados, entre escravos, no parlamento, entrando e saindo de Roma. Imagine que para manter a segurança de um Império tão grande, o controle absoluto é o primordial. E com o aumento e proeminência dos cristãos isso se tornava cada dia mais difícil. Controlá-los e ser ciar sua liberdade era inevitável. Enquanto as religiões de modo geral eram fáceis de controlar, os cristãos eram obedientes a suas autoridades. Eles obedeciam quase que cegamente.

Mesmo assim, a diversificação teve início. As brigas dentro da doutrina fizeram nascer vertentes particulares de cristãos. Dos mais pacíficos aos mais violentos. Dos que pregavam um Jesus amoroso que veio para unir o ser humano a Deus, aos que achavam que eram eleitos e santos, que os impuros deviam morrer pela espada e seus deuses destruídos pelo fogo. Esses cristianismos cresceram de tal maneira, guerreando entre si mesmos e entre os adeptos “pagãos” de diversas religiões dentro de Roma,  que o Império já não podia controlá-los, nem tampouco ignorar sua existência. Foi nesse período conflituoso, outubro de 312  d;C,  que o Imperador Constantino I coincidentemente tornou-se cristão. E decidiu tornar também o cristianismo como a religião oficial do império.  Essa conversão do imperador romano a nova fé, inaugurou tudo que temos por cristianismo nos dias de hoje.

Em 325 de nossa era, Constantino convocou o primeiro Concílio de Niceia. Foi o primeiro encontro ecumênico patrocinado pelo império para traçar os rumos do Cristianismo. Ao que parece foi muito eficiente, pois muito de suas determinações são seguidas por Católicos e Protestantes até hoje. Mas aquele não foi o único encontro de Cristãos para tratar das leis doutrinárias e teológicas do Cristianismo, mas foi talvez o mais importante pela sua marca histórica.

 

Foto: Basílica de São Pedro - Vaticano.
Foto: Basílica de São Pedro – Vaticano.

Niceia representou uma divisão na história da Igreja de Jesus Cristo. Até aquele momento a Igreja era um grupo civil que após ter sido tão perseguido pelo Governo Romano, agora, não só fazia parte dele, como tornou-se patrocinado e protegido pelo Império. O que poucos sabem, porém, é que já havia um Papa em 325 e embora fosse o líder maior da Igreja, ele não compareceu a um dos encontros, se não “O” encontro, mais importante para a doutrina. Silvestre I, o Papa em exercício, preferiu mandar dois representantes em seu lugar. A cidade de Niceia, hoje chamada de Iznik, parte atual da Turquia, era distante de Roma, mas para Constantino o local era estratégico, pela igual distância das principais concentrações de grupos Cristãos, maioria no oriente.

O imperador não só arcou com os custos do transporte necessário para os bispos, como providenciou alojamentos adequados e confortáveis. Sua intenção era promover um debate produtivo e de mudanças reais. Constantino sonhava com uma Igreja Universal que fosse capaz de auto suprir-se e permanecer firme em sua doutrina para sempre.

Muitas questões definidas no encontro eram apenas sancionar conceitos que os próprios líderes já pregavam individualmente. Mas foi necessário debater sobre temas muito polêmicos, como por exemplo a Divindade de Jesus.

 

Imagem: "O Sagrado Coração de Jesus".
Imagem: “O Sagrado Coração de Jesus”.

Para você isso pode ser chocante, mas muitos cristãos dos primórdios da Igreja acreditavam que Jesus fosse o Messias, o profeta prometido, um homem muito poderoso mas não um Deus. Basicamente porque o Messias prometido por Deus no Antigo Testamento era sim alguém de notável importância, mas ainda sim um homem, como o profeta Moisés e otros de semelhante importância. Obviamente o conceito da Divindade de Cristo não foi criada pelo Imperador. Ela já existia e uma parte considerável dos líderes já o possuíam como base teológica consolidada.

Por outro lado, alguns grupos entendiam a pessoa de Jesus de outro modo, mas eram Cristãos de facto. Eles possuíam o conceito do Deus único, ensinado até então no judaísmo mas serviam a Jesus como o emissário de Deus, Senhor dos homens, mas ainda assim, uma criatura, como nós.  O conflito de ideias gerou duas lideranças de posições distintas.  Atanásio de Alexandria, que veio da Igreja no Egito e era um dos principais bispos no encontro, e Ário, também bispo e liderança religiosa com muitos seguidores. Enquanto Atanásio defendia que havia uma “Trindade Divina”, Ário dizia que Deus e Jesus eram pessoas diferentes.

Segundo Atanásio, Deus era em si mesmo três pessoas distintas mas consubstanciadas. Um único Deus que existe em três manifestações diferentes. O Pai que cria, o Filho que intercede e o Espírito Santo que executa. Ele postulou que Deus era uma entidade mas em três manifestações Eternas, ou seja, o Pai sempre fará como são suas características, o Filho e o espírito Santo também manifestarão suas ações em conformidade com suas respectivas características. São eternos desde sempre e incriados. Para respaldar sua interpretação, Atanásio e seus partidários, se utilizaram de trechos das escrituras antigas (Velho Testamento) que demonstravam que Deus era único, mas manifesto em mais de um ser.

Gênesis 18:1-4:  “Depois apareceu-lhe o Senhor nos carvalhais de Manre, estando ele assentado à porta da tenda, no calor do dia E levantou os seus olhos, e olhou, e eis três homens em pé junto a ele. E vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro e inclinou-se à terra, E disse: Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo. Que se traga já um pouco de água, e lavai os vossos pés, e recostai-vos debaixo desta árvore;“.

Gênesis 1:26,27:  “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

Gênesis 3:22:  “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente,”

[Brevemente eu darei uma explicação no blog bem curiosa sobre esta passagem em Gênesis 3:22. Aguarde.]

Não havia um Novo Testamento oficial na época do Concílio, mas as cartas apostólicas já eram consultadas entre outros textos. E a importância de Jesus, bem como a do Espírito Santo, levaram aos teólogos a conclusão que Deus Pai, Deus Filho (Jesus) e Deus Espírito Santo, estiveram na Criação e são em si mesmo um único ser; O Criador.

Contudo os seguidores de Ário discordavam da interpretação de que Deus fosse único, mas se manifestasse em três figuras distintas. Para eles, O Pai era Deus, Mas Jesus e o Espírito Santo eram seres criados por Deus. Houve ainda quem propôs a tese que na realidade, os três seres são sim três Deuses distintos e incriados. De modo que Deus não seria único, mas dividisse a Criação com Dois outros Deuses, Jesus e o Espírito Santo. Segundo essa visão, as aparições de Deus Javé no Antigo Testamento, tratava-se de Jesus, antes de sua vinda encarnado. mas o “Pai” ao qual referia-se quando orava,   Cristo falava com o Criador do Universo. Existia outras interpretações que embora vissem as três pessoas como individuais e diferentes, no tocante à divindade, dava ao “Filho” e ao “Espírito Santo” uma posição abaixo do Deus Criador. E para tanto, eles também se basearam em textos, tanto das Antigas escrituras, quanto dos escritos apostólicos.

A primeira evidência e a mais óbvia, era que nem a palavra Trindade, ou mesmo seu conceito, como esplanado por Atanásio, não  aparecia em nenhum dos textos, do Velho ou ddo Novo Testamentos. Tanto Jave, Jesus, Espírito Santo, “façamos”, “nossa semelhança”, “nós”, entre outras palavras que pluralizavam o Poder divino, eram palavras que apareciam nos textos, mas não se explicavam por si mesmas. Elas apenas estavam lá. Cada qual usada em um determinado momento. E não se há de negar as inúmeras vezes em que Deus afirmou-se como sendo um único SER, a única divindade Criadora.

Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único?” (João 5:44.);

Um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus, e Pai de todos, o qual é sobre todos e por todos e em todos.” (Efésios 4:5-6);

“Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de Mim não há Deus;…para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de Mim não há outro; Eu sou o Senhor, e não há outro.” (Isaías 45:5 e 6);

“E disse-Lhe o diabo: Dar-Te-ei toda a autoridade e glória destes reinos; porque a mim me foi entregue, e dou-a a quem quero; portanto, se Tu me adorares, tudo será Teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás.” (Lucas 4:6-8);

E por último uma passagem bastante curiosa contida no Evangelho de Lucas, Capítulo 18, versículo 19: “E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna? Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus. Lucas 18:18,19“.

Em todos os momentos Jesus se colocava em posição relativa ‘abaixo’ do “Pai”. Segundo os que defendiam a separação na Trindade, se Jesus e Deus fossem uma única deidade, não caberia uma relação hierárquica no tratamento entre Eles. Quando Jesus afirma-se como “não” bondoso, é inegável que ele não se colocava como uma pessoa má. Mas em comparação com o “Pai”, ele não era perfeito.

Por ser Filho de Deus, logo em algum momento Jesus teve de ser Criado por Ele. Isso presume que o Cristo teve uma origem e por mais que seja Eterno, é Criação de Seu Pai. Mas o que dizer do Espírito Santo?

1 Coríntios 6:19:  “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?

Atos 1.8:  “… mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis Minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.

A Pessoa do Espírito Santo não era explicada com exatidão nem pelos contra a tese da Trindade,  nem pelos favoráveis. Os que defendiam que eram seres diferentes, no entanto, pediram atenção na ocorrência da aparição do Espírito santo nas Escrituras e nos escritos apostólicos. Quando o termo “Espírito de Deus” é usado, alegam os contra a tese de trindade, pode ser exatamente o que a expressão insinua:

Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.”  (João 4:24).

espírito de Deus seria o próprio Deus, Espírito Santo seria uma outra entidade, em mesmo grau de importância de Cristo. Porém, eles não explicavam em sua tese Quem seria de facto o Espírito Santo. Foram honestos contudo ao afirmarem  que embora não tivessem todas as explicações, seus conceitos se baseavam nas escrituras, não gerando uma interpretação “mística” para explicar algo que não possui explicação.

Como você deve estar imaginando, a briga por esse debate foi intensa.  Os judeus consolidaram sua fé em um Deus único e onipotente, mas os cristãos queriam ensinar que Deus ainda era único, mas em três corpos diferentes. Essa explicação não convencia nem mesmo os próprios. Mas era necessário lidar com um ponto mais relevante para uma igreja que queria afirmar-se como coesa. Se Deus fosse uma Unidade e não “triunidade”, como explicar aos Cristãos a existência de um Cristo como sendo portador da Salvação?

Se Jesus for, ainda que apenas relativamente, inferior a deus, ele não pode salvar quem quiser, somente quem o Pai autorizar. Sendo assim, a doutrina Cristã seria forçada a conviver com aqueles que em vez de buscarem o céu por meio de Jesus, tentassem diretamente por Deus. Logo, eles levariam pessoas para o judaísmo, ao invés do cristianismo. Ao fim do debate, foi postulado de fato que Deus é Pai, é Filho e é Espírito santo. É um único e Soberano Deus manifesto em uma Trindade.

Essa explicação não sumiu da Igreja, muitos continuaram intepretando diferente do ordenado. Atualmente algumas religiões protestantes adotaram a tese ariana para sua teologia, como os testemunhas de Jeová, grupos dentro da Igreja Adventista e a religião dos Santos dos Últimos dias. Existem ainda as religiões menores que interpretam também como o Bispo Ário entendia.

 

A Bíblia está sujeita a diversas interpretações. Com esse exemplo, você viu que para dois grupos que possuem um enorme intendimento do teor contido nela, podem divergir com argumentos muito válidos. Mas você pode se afirmar como um conhecedor da Bíblia?

A Palavra de Deus:

Cena de "A Perícope da Adúltera".
Cena de “A Perícope da Adúltera”.

Os concílios promovidos pela Igreja Romana sancionaram quais eram os livros que consideravam inspirados por Deus.  Principalmente no conceito de Novo Testamento, que seria incorporado a uma Bíblia já existente. Foram selecionados quatro Evangelhos, um Livro de Atos dos Apóstolos, epístolas (cartas( dos principais divulgadores do Cristianismo no primeiro Século, e o livro das Revelações de Jesus a João (Apocalipse).

Mas qual foram os critérios adotados? Quem julgou se o livro selecionado tinha maior valor teológico que o escluso? O que os livros considerados como, não inspirados” tinham em seu teor que fosse contra os que foram considerados como Sagrados? Algumas das perguntas que permaneceram sem resposta por centenas de séculos. Mas hoje já sabemos algumas dessas respostas.

Os teólogos acreditam que o Evangelho mais velho a ser escrito foi o Evangelho de Marcos, no ano 70 depois de Cristo. Os outros três Evangelhos vieram depois. Ou seja, nenhum dos livros que retratam o ministério de Jesus, foram escritos durante sua vida. E para a maior parte dos teólogos, todos eles foram escritos por pessoas diferentes dos alegados nomes. Isto é, o evangelho atribuído ao apóstlo João, por exemplo, foi na realidade escrito por outra pessoa, que variavelmente pode se chamar João, ou mesmo um nome completamente diferente. É impossível que os discípulos recrutados por Jesus no início daquele século, já adultos na fase da maturidade dele, estivessem vivos no fim e começo do século subsequente. mesmo assim, a igreja aceitou as obras e as incorporo ao Novo Testamento. Como critério base, era considerado como livro inspirado por Deus, os que prioritariamente tivessem sido escritos durante o Século I, tendo em vista que o primeiro foi feito em 70 daquele século.

Existem dezenas de epístolas, diversos Evangelhos, muitos livros de Revelações e outras composições dos alegados escritores dos quatro Evangelhos canônicos e as epístolas sagradas. Contudo, todos foram recusados. O outro critério essencial  era a conformidade coma   doutrina definida pelos concílios, tendo o Primeiro de Niceia como ponto inicial. Sendo assim, os homens que definiram o que entraria na Bíblia não foram os profetas que falaram em nome de Deus, foram os homens do Império e os líderes da Igreja que concluíram o que devia ser pregado e o que não devia. O que fosse contrário à teologia definida, era considerado herético. Tais heresias eram portanto queimadas. Sua simples existência era ofensivo a Deus. Mas a existências dos grupos chamados gnósticos, que eram uma parcela de Cristãos que criam em Jesus e em Deus com base no ensinado nos livros “heréticos” da Igreja, decidiram por escondê-los  para que a história os polpasse.

foto: Caverna em Nag Hammadino Egito
foto: Caverna em Nag Hammadino Egito

Funcionou. Numa pequena  localidade no Alto Egito em Nag Hammadi, aonde em 1945, o camponês Muhamad Ali Salmman, encontrou um grande pote vermelho de cerâmica, contendo treze livros de papiro encadernados em couro. No total descobriram cinqüenta e dois textos naquele sítio. Mal sabia ele da preciosidade cultural e religiosa que havia encontrado. os manuscritos foram encaminhados ao Dr. Gilles Quispel, especialistas no idioma copta e na história Cristã no Egito.

Na primeira análise, para surpresa do Dr. Quispel, a primeira linha traduzida do copta foi: “Essas são as palavras secretas que Jesus, O Vivo, proferiu, e que seu gêmeo, Judas Tomé, anotou“. Os manuscritos, hoje conhecidos como Evangelhos Gnósticos, ou Apócrifos (Apocryphom literalmente livro secreto), revelam ensinamentos, apresentados segundo perspectivas bastante diversas daquelas dos Evangelhos Oficiais da Igreja Romana; como por exemplo este trecho atribuído a Jesus, O Vivo: “Se manifestarem aquilo que têm em si, isso que manifestarem os salvará. Se não manifestarem o que têm em si, isso que não manifestarem os destruirá“.

Além dos Evangelhos  outros textos compõe o legado de Nag Hammadi, de cunho teológico e filosófico. Os papiros encontrados  tinham cerca de 1.500 anos, e eram traduções em copta de manuscritos ainda mais antigos feitos em grego, língua do Novo Testamento, como constatou-se, ao verificar que parte destes manuscritos tinham sido encontrados em outros locais, como por exemplo alguns fragmentos do chamado Evangelho de Tomé. As datas dos textos originais estão estimadas entre os anos 50 e 180, pois em 180, Irineu o bispo ortodoxo de Lyon, declarou que os hereges “dizem possuir mais evangelhos do que os que realmente existem”.

Estudos apontaram que os pergaminhos datam do século IV e foram escondidos, muito provavelmente após a declaração que, fora os contidos na Bíblia, os textos que falavam de Deus e Jesus sem a   autorização excepcional, eram automaticamente obras de heresia.

Se por um lado, a história da igreja revela seu empenho  em remover da Bíblia passagens que julgava anticristãs, por outro lado, misteriosamente ela poderia ter inserido outras passagens sem se preocupar com resultados. além de notáveis divergências nos próprios textos, das contradições nos discursos, de uma mesma história contadas duas vezes, e até contada de modo diferente, temos notícia de um trecho que foi incluído pela Igreja, não pelo autor. E talvez por ironia do destino, é uma das passagens evangélicas mais belas e mais reencenadas da história do Cristianismo. A Perícope da Adúltera.

João 7:53: “E cada um foi para sua casa.” ;

Prosseguindo no próximo capítulo (João 8:1-11): “Jesus, porém, foi para o Monte das Oliveiras. E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava. E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais“.

Sim, essa é uma passagem muito linda e de significado profundo. Mas ela não aparece nos originais dos textos do Evangelho de João. Foi acrescentado no Século IV. Quem defende  a legitimidade espiritual do texto, apela para que a história já era contada na Igreja há muitos anos, embora não estivesse descrita em nenhum dos livros canonisados, nem nos apócrifos.  Afirmam que de fato ela não era do evangelho de João, mas devia pertencer ao de Lucas, mas foi incluída equivocadamente. Seja como for, a beleza e a pregação que foi feita com base nele, alterou o essência  dos ensinamentos de Jesus?

Foto: "Codex Sinaiticus" Um dos escritos Cristãos mais antigos e preservados que possuímos. Século IV.
Foto: “Codex Sinaiticus” Um dos escritos Cristãos mais antigos e preservados que possuímos. Século IV.

Observamos que não só textos foram incluídos, mas traduções mal feitas e forçadas preenchem as escrituras. Originalmente Velho Testamento foi escrito em Hebraico e grego, com alguns textos em aramaico. Novo Testamento já a maior parte em Grego, com algumas partes em aramaico e hebraico. No entanto, a primeira providência, após a definição do Cânone, era traduzir todos os textos para o Grego, a língua mais importante no império, como o Inglês  é para a civilização hoje. E foi feito. A Septuaginta )LXX) ou “textus receptus”(texto recebido) , primeira grande tradução dos textos bíblicos. Ele serviu de base para a maioria das traduções subsequentes. A igreja ainda traduziu o Velho Testamento para a Vulgata, Latin antigo que também serveria de base para transliterações judaicas futuras.

Mas o que é preciso considerar, é que além dos tradutores, haviam também os copiadores. A forma de produção em massa não existia até quatrocentos  anos atrás. Então cada exemplar da Bíblia era copiado a mão. Imagine um copiador qu por ventura não concorde com o autor? Ele pode mudar o texto. E no fim confiamos que o texto é do autor, quando na verdade sofremos influência do copiador e do tradutor.

Agora imagine que de 325 a 1600 passaram-se cerca  de 1275 anos em que os Textos Sagrados só eram reproduzidos e traduzidos por mãos humanas. Foi somente com a possibilidade da produção de bíblias em massa, com as prensas de tipos móveis, que as escrituras passaram a ser padronizadas. Foi nesta época que o protestantismo floresceu. Dissidentes da Igreja leram a Bíblia e entenderam que o que a Igreja Romana  dizia não era aquilo que ela pregava, por isso acharam que o povo comum devia ter acesso aos textos Sagrados. Somente assim eles poderiam seguir a Deus como é ensinado pelas Escrituras. Pouco a pouco novas tentativas de rompimento com a Igreja ocorriam a todo momento. Mas Roma era poderosa e conseguia se desvencilhar de tais incursões. Até que dois fenômenos se abaterão sobre ela.

Henrique VIII de Inglaterra:

Pintura Representação: Rei Henrique XVII da Inglaterra *Reprodução: Wikipédia).
Pintura Representação: Rei Henrique XVII da Inglaterra *Reprodução: Wikipédia).

Conta a História que pouco antes da invenção das prensas tipo móvel, Henrique VIII, se  viu numa situação incômoda. Ao desejar se divorciar da então esposa, Catarina de Aragão, para casar-se com a dama de Companhia desta, Ana maria Bolena, seu pedido de divórcio foi recusado pela Igreja.  Segundo o Rei Inglês, ele não havia consumado o matrimônio com Catarina e já estava envolvido com Ana. Esperava conseguir sem maiores entraves a anulação formal para dar prosseguimento nos preparativos de seu novo casamento.  No entanto a recusa da Igreja e sua irredutibilidade, fizeram o monarca tomar medidas drásticas. Henrique  encerrou toda e qualquer relação com a autoridade Papal, fechou os mosteiros no Reino e declarou-se a si mesmo como a “Autoridade Suprema da Igreja na Inglaterra”. Embora fosse um tipo de primeiro reformista, Henrique manteve a grande maioria das interpretações Romanas para a Bíblia. Foi com a Criação de uma Igreja não obediente ao Papa na Inglaterra, que alguns estudiosos cogitaram a possibilidade de hem rique autorizar uma tradução dos textos bíblicos para o inglês. Embora o Rei não tivesse de fato chegado a publicar algo assim, consta que ele autorizou o início das traduções.

Para a Igreja,  tentar traduzir a “Palavra de Deus” para qualquer idioma mundano era crime punível com a morte. porém Henrique VIII deu um passo do qual o mundo jamais voltaria. Anos mais tarde, o líder da coroa Inglesa, Rei Jaime (James) V da Escócia, I da Inglaterra , autorizaria de fato a tradução completa e a publicação de uma Bíblia  interamente em Inglês. Ela foi pensada para reforçar os valores Anglicanos e desautorizar a Igreja romana, colocando-a na posição de anticristã.

 

Martinho Lutero:

Pintura: Martinho Lutero, Principal Reformista protestante Século XVI.
Pintura: Martinho Lutero, Principal Reformista protestante Século XVI.

Se você é evangélico, de qualquer vertente, talvez deva dizer-se “um pouco luterano.” Lutter foi um monge católico Agostiniano e professor de teologia germânico que se fez conhecido por figurar como principal dissidente reformista da Igreja. Assim como Henrique, Lutero cortou seus vínculos com a liderança Papal e decidiu  que a população comum deveria ter acesso ao conhecimento contido na Bíblia. Porém, diferentemente do monarca Inglês, Lutero não possuía poder o suficiente para enfrentar sozinho a Igreja. Por isso foi perseguido por ela, se fazendo necessário encontrar asilo político em uma nação que tivesse interesses divergentes do da Igreja romana. E foi nesse sentido que Martinho Lutero conseguiu refugiar-se com a proteção do governo germânico (Alemanha). O reformista chegou a receber uma bula papal de Excomunhão, e por não acreditar na autoridade do Papa para escomungar alguém, o religioso queimou o documento em praça pública, discursando para  uma multidão de seguidores.

Lutero fez uma tradução da Bíblia para o alemão. Não é atôa que se consolidou como o mais importante reformista. Ele fundou a Igreja Luterana. Mas no fim de sua vida, a História revela que o pregador passou a falar duramente contra os descendentes judeus no país. fato que levou a acreditar que o famoso protestante era antissemita.

A Bíblia passou por muitas mãos. Dos idiomas originais para uma versão em grego, em latin. Posteriormente para uma em Inglês e outra em alemão. Com base nelas as escrituras foram traduzidas para o espanhol e para o português.  Sem contar sua história de cerca de 1200 anos quase totalmente monopolizada pela Igreja medieval.

Imagem de "A Bíblia Sagrada" - Divulgação (Livraria Cultura).
Imagem de “A Bíblia Sagrada” – Divulgação (Livraria Cultura).

Se você usa a Bíblia como um guia para sua condulta moral, é pleno e válido. Mas ela é um Livro com uma História tão longa quanto o próprio Cristianismo. E assim como o Cristianismo tem mistérios que não são revelados a qualquer pessoa, as Escrituras Sagradas têm  sua cota de Mistérios. Os fatos descritos aqui podem ser devidamente verificados com algumas poucas horas de pesquisa. Existem muitos outros assuntos não tratados aqui mas que você deveria, mesmo por curiosidade, passar a saber.

O objetivo deste texto, que é o segundo da série, não é para doutrinar ou mesmo para fazer alguém deixar sua fé. É meramente com o intuito de informar e combater o fanatismo. A quantidade de  pessoas que brigam em nome de uma crença “cega”, tem aumentado dia a dia. E o fanatismo só pode ser combatido com o conhecimento.

Eu farei brevemente um texto explicando uma visão muito interessante sobre o Evangelho de Jesus que vai te surpreender. Mas enquanto isso, medite no conhecimento adquirido. Desconfie das traduções estranhas. Lembre-se que algumas palavras são muito recentes para estarem no Texto Sagrado de mais de 2 mil anos. Questionar é o que nos difere dos animais que nos cercam. E se você crê ter sido criado inteligente, não negue sua inteligência por medo de perder sua fé. Use-a!

Não existem tabus.

No próximo capítulo, veremos uma outra polêmica dentro da visão religiosa que dá muito assunto e briga na internet. Aguarde para esta semana.

 

 

Fontes: Wikipédia, Textos Originais da Bíblia, História do Cristianismo, Igreja Católica, site Bíblia Online, Snp Cultura, Textos Doutrina Espírita, G1.

Recomendo para leitura: SNP Cultura.

Download: Livros Apócrifos da Bíblia.

Karlos Souza

Nascido em Montes Claros/MG em Janeiro de 1987, morador de brasília desde 2004, estudou Letras e literatura, mas sua paixão sempre foi a tecnologia. Fazendo um pouco de tudo, Karlos estudou também teologia e aventurou-se em escatologia. Fora das ciências humanas, também tem como hobby o estudo de astronomia e cosmologia, além de história e ciência política. Mesmo com tantos aspectos aparentemente difusos, ele consegue encontrar harmonia no significado que dá a todos eles e as devidas ligações que constrói para desenvolver seus artigos com base nesses assuntos.Trabalha atualmente na área de atendimento ao cidadão e é editor do blog Celentor.com.