Diabo, o Politeísmo Cristão: A Verdade por Trás dos Mitos.

Ele é temido e odiado há séculos. Por muito tempo, foi visto como o principal responsável pelos males da humanidade. Suas, seriam as culpas das guerras, da fome, do ódio entre as pessoas, da miséria e das moléstias. O diabo hoje está em filmes, nos templos, nas histórias e na mente do povo ocidental. Entenda como uma figura tão  detestada pela maioria, tornou-se um outro deus, em uma espécie de politeísmo cristão. 

Se você é cristão, ou tem criação cristã, deve conhecer muito bem a história do “inimigo de Deus. Mas vamos resumí-la para eventuais comparações. Segundo a teologia Católico-protestante, Diabo, Satanás, Acusador, A besta, Dragão, Pai da Mentira, entre outros nomes, são apelidos dados à entidade angelical chamada Lúcifer. Este seria um anjo de muita beleza e poder, que fora criado antes mesmo que o homem fosse. Lúcifer liderava os anjos para o Criador e sob Seu comando, o futuro Anjo Mal, até então era a segunda maior autoridade no céu.

Com o tempo, Lúcifer começou a invejar a posição Superior ocupada por Deus. E então, o anjo decidiu convencer outros de seus irmãos angeorilicais a promoverem um motim. Queriam assumir o comando total do céu, não para si, mas para lúcifer. Ele quem queria assentar-se sobre o trono do Altíssimo.

Assim que foi percebido, Deus encheu-Se de ira e ordenou que o  3º na hierarquia celestial, que viria a ser o 2º após a grande batalha, Miguel, liderasse os anjos contra os rebeldes. Grande foi a guerra no céu. Lúcifer perdeu seu status e foi arremessado à Terra, junto aos seus seguidores. E antes do agora Diabo, não havia o mau. Esse veio a existir após a grande inveja satânica. Depois daquela  batalha que findou com a condenação do maudoso satanás, criou deus o homem e o jardim do Éden, onde o poria para reinar sobre toda a criação.

Obra: Adãoe Eva - A tentação no éden. (reprodução).
Obra: Adãoe Eva – A tentação no éden. (reprodução).

Mas o Diabo não se contentou com tal afronta. Se ele não podia ser feliz, o homem não seria. Então, afim de destituir o ser humano das benesses Divinas, Satanás começou a maquinar uma forma de corromper o homem. Sorrateiramente, em forma de uma serpente, Lúcifer convenceu Eva a comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Uma árvore plantada no jardim por Deus. O Criador logo antes, teria advertido o casal humano que havia criado, a não comerem dos frutos daquela árvore, sob a possibilidade de morrerem.

Seduzida pelas convincentes palavras da serpente,  e pela tentação de “ser como Deus”, conhecendo o bem e o mal, Eva comeu do fruto. E tão bom era seu gosto, que levou ao seu parceiro, Adão, que também comeu. Após Adão morder do fruto, ambos reconheceram sua nudez. Perderam a chamada ‘glória” e se acharam em desobediência das ordens expressas do Criador. A punição foi a expulsão deles do jardim perfeito criado para que eles vivessem em felicidade plena. Mas como havia no jardim a árvore da vida, e não podia ser comida pelo homem, Deus decidiu por dois anjos com espadas flamejantes para guardarem-no, afim de que o ser humano não retornasse para lá.  Antes imortais, eles foram condenados a morte. Voltariam ao pó da terra. A Mulher, por ser ela a conduzir o homem a pecar, também fora punida. Além da morte e da expulsão, ela passaria a sofrer dores terríveis para gerar vida.  Adão, teria que comer do fruto de seu suor, isto é, teria de trabalhar. De caçar para obter alimento. E deveria, por meio do seu trabalho, sustentar a si mesmo e  a sua mulher. Até mesmo a serpente fora punida. Ela foi condenada a rastejar sobre a terra até o fim de seus dias.

Por meio do Diabo  o mau manifestou-se na criação. E também assim, o erro de Adão contaminou toda a Terra. Pelo menos é essa a história que os teólogos cristãos contam. Mas será que teria sido deste modo? Ou melhor, será que a própria Bíblia, a fonte dessa história, evidencie que as coisas ocorreram dessa maneira?

Mas o Diabo não é uma figura que foi criada na Bíblia. Pelo menos não essa pessoa, essa “corporificação” do mal. Diabo, não é um nome próprio. Por isso a partir daqui, irei escrever com a grafia correta, diabo (com letras minúsculas), por não ser justamente um nome próprio mas sim um adjetivo (característica). A palavra diabo tem origem no Latim, diabolus.  Essa palavra vem de um idioma mais antigo, o grego, onde era  diábolos (διάβολος.). Significa “caluniador”, ou “acusador”. Por sua vez, originou-se de diaballein, “atacar, “acusar falsamente”, literalmente “lançar através”, de dia, “através”, mais ballein, “jogar, lançar, atirar”.

Até mesmo satanás, aqui escrito com letra minúscula, não é nome, mas qualificação. Satanás ou Satã, original do hebraico “שָטָן”, transliterando para  Satan, é o mesmo que  “adversário”. No koiné “Σατανάς” que também é  satanás; no aramaico “צטנא”, e  em árabe “شيطان”.

Referente a Demônio, igualmente a situação se assemelha. Mas aqui cabe um adendo. Originalmente, demônio é, segundo o primórdio cristão, a figura do diabo. Mas com mudanças medievais no cristianismo, ele passou a ser uma classe de anjos subservientes a lúcifer. Desta forma, demônios são, conforme teologia cristã, entidades inteligentes espirituais, que se apoderam dos seres humanos para conduzi-los ao mal. Porém essa visão diverge da judaica sobre esse conceito de “demônio”. Para a tradição judaica, demônios são espíritos criados depois do homem. E existem à parte deste. São entidades meio humanas, meio espirituais, cuja natureza os tende ao caos. Com tudo, não se caracteriza como maldade extrema nem determinismo para o mal. O conceito do mau encarnado, ou no demônio ensinado no cristianismo, é particular. Na tradição árabe, a situação se torna mais interessante. Essa mesma entidade que foi representada no grego antigo como daemon (“δαίμων ”, transliterando, fica “daímôn”), é para os árabes o chamado Jinn(جِنّ), ou gênio no português.

Com a exceção do cristianismo, o conceito das demais tradições, que creem numa entidade por nome demônio, entendem ser ela um ser com possibilidades para o bem, ou para o mal, devido às raízes na cultura grega. É evidente que existe a possibilidade do significado que os gregos davam ao “daemon”, ter chegado às culturas judaico-cristãs. Mas na raíz da primeira, daemon é característica do individuo. Isto é, amor, paixão, bondade, fúria, ganância… Quando ela passou a dar significado a seres inteligíveis? O fato é que para os antigos judeus, sob a dominação romana, os daemons eram a explicação para toda enfermidade cuja manifestação não era evidenciada no físico. Assim, comumente moléstias psiquiátricas, como a epilepsia, a esquizofrenia, parafilias, entre outras; tinham como origem os daemons, ou os demônios. Foi nesse contexto que nasceu o sinônimo para espíritos imundos.

 

É vital, caro leitor, que entenda esses conceitos antes de falarmos da origem do ser “diabo”. Como dito, daemons, ou demônios, passaram a ser a explicação para certas doenças. Mas vale ressaltar que isso não torna todos os demônios, como maudosos pelo simples fato de que isso não é explicitado. Apesar de aparecer no Antigo Testamento, é no Novo que a palavra espírito, começou a ser proeminente e ter significados extremamente distintos. O conceito também não era novo, mas a palavra sim.  Aparecendo muitas vezes nos textos com significados e contextos diferentes. Convencionou-se que quando da parte de Deus, o espírito é bom( esntão a palavra Espírito é escrita iniada por letra maiúscula), quando produz o mal, esse é imundo, impuro, ou o que chamamos hoje por demônio (tendo a palavra espírito escrita inialmente por letra minúscula). Nos textos teológicos, para distinguir, afim de denotar a proveniência destes, os tradutores e copiadores, os escrevem como nomes próprios. “Espírito de Deus”, “Espírito Santo”, “Espírito de Verdade”,“meu Espírito” (quando é Deus falando), etc. Mas esse destaque, só foi dado na Igreja, pois nos textos originais, esse ato de modificar a escrita para ressaltar a proveniência, não existe. Sendo no caso evidenciado sim que existe nos textos, espíritos que provêm de Deus e outros espíritos impuros, ou imundos.

É interessante também rastrear as origens da palavra.  Espírito, do Latim “spiritus”, significando “respiração” ou “sopro”, mas também pode estar se referindo a “coragem”, “vigor” e finalmente, fazer referência a sua raiz no idioma PIE *(s)peis- (“soprar”). Na Vulgata, a palavra em Latim é traduzida a partir do grego “pneuma” (πνευμα), (em Hebreu (רוח) ruah), e está em oposição ao termo anima, traduzido por “psykhē”.

Para os primeiros cristãos, espírito e o que entendemos por alma, são coisas diferentes. Mas tanto espírito, quanto alma e o corpo, são desassociáveis. Eles não acreditavam que para um ser, ser completo, poderia ter somente um. Havia a necessidade de ter os três aspectos para que alguém fosse completo.

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”  (1 Tessalonicenses 5:23).

No latim: “Ipse autem Deus pacis sanctificet vos per omnia, et integer spiritus vester et anima et corpus sine querela in adventu Domini nostri Iesu Christi servetur.

 

No Textus Receptus, original grego: “αυτος δε ο θεος της ειρηνης αγιασαι υμας ολοτελεις και ολοκληρον υμων το πνευμα και η ψυχη και το σωμα αμεμπτως εν τη παρουσια του κυριου ημων ιησου χριστου τηρηθειη”.

Neste ponto você pode ter ficado confuso. Como alguém é completo somente se possuir corpo, alma e espírito? Talvez baseado nessa crença, que o conceito de “Trindade” surgiu entre os primeiros cristãos e foi logo empregado a Deus. Mas a maior de todas as confusões só surgiu depois que a Igreja cristã foi encorporada ao governo romano. O diabo ganhou um reino próprio. Lugar que se confunde como seu local de prisão ou seu verdadeiro império; o inferno.

Origem do Inferno.

“Mapa do Inferno”, de Sandro Botticelli, a ilustração retrata os Nove Círculos concêntricos descritos no Inferno, com todo o sofrimento dos que tiveram esse, como destino final. Obra baseada nos escritos de Dante Alighieri e seu poema "A Divina Comédia" (Século XIII). (Reprodução).
“Mapa do Inferno”, de Sandro Botticelli, a ilustração retrata os Nove Círculos concêntricos descritos no Inferno, com todo o sofrimento dos que tiveram esse, como destino final. Obra baseada nos escritos de Dante Alighieri e seu poema “A Divina Comédia” (Século XIII). (Reprodução).

Hoje o conceito dado pela igreja ao “inferno” é basicamente de um lugar de tormento, com fogo e trevas, onde as almas dos homens condenados ão de arder eternamente.  Mas essa foi uma interpretação mística feita de um texto que não diz nada sobre isso. O termo inferno, tem origem na palavra latina pré-cristã“ inferus”, “infernus” (Lugares baixos). Na Bíblia latina, esse termo começou a ser usado para traduzir do hebraico, linguagem do Antigo Testamento, as representações escritas da palavra sheole no grego,  linguagem original do Novo, as palavras Hades e Geena.

Embora sejam três palavras com significados totalmente diferentes, uns dos outros, elas tem sido traduzidas como apenas uma; inferno. Mas por que? Difícil é explicar. Mas o que podemos fazer é comparar.

Embora os textos originais contenham Sheol, no hebraico, Geena e Hades, no grego, toda vez que surgir tais palavras neles. Você lerá apenas pelo nome de inferno. Saiba portanto que quando ler esta palavra na Bíblia, na realidade o autor usou uma das outras três.
Sheol, Xeol ou Seol, (pronunciado “Sheh-ol”), em Hebraico שאול (She’ol); é literalmente  o significado para  “túmulo”, ou “cova” ou “a sepultura”. religiosamente, para os judeus, sheol é o lugar para onde os mortos vão. Após a conversão obrigatória dos textos bíblicos do hebraico para o grego, aquela palavra foi traduzida para um dos dois termos d’antes citados. Mais comumente Hades. Judeus creem que o sheol pode então, ser o local de punição  para o ser humano. Mas nãode tormento eterno. As penas variam até no máximo 12 (doze) meses, descontando porém os sábados.
Geena (do hebraico גֵיא בֶן-הִנֹּם, transliterando, é Geh Ben-Hinom, literalmente “Vale do Filho de Hinom”) é um vale em torno da Cidade Antiga de Jerusalém, e que veio a tornar-se um depósito onde o lixo era incinerado. Atualmente é conhecido como Uádi er-Rababi.
Hades – Esse merece detalhamento.

Hades: Comparando o Submundo (que muitas vezes também é chamado de "Hades") para a visão moderna do inferno (alegoria). (reprodução: Gods and Monsters).
Hades: Comparando o Submundo (que muitas vezes também é chamado de “Hades”) para a visão moderna do inferno (alegoria). (reprodução: Gods and Monsters).

Hades

Após se tornar um conceito comum no cristianismo. A palavra hades aparece como um termo recorrente no Novo Testamento, e todas as vezes, sua tradução pela Igreja é feita como sendo inferno. Mas vejamos as origens dessa palavra.
Hades (em grego clássico: Ἅιδης ou Άͅδης; transliterando: Haides ou Hades), na mitologia grega, é o deus do mundo inferior e dos mortos.  Mais tarde, com a incorporação da mitologia pelo império, houve equivalência entre hades , grego,  ao deus romano Plutão, que significa “o rico”; e que era também um dos seus epítetos gregos, seu nome era usado frequentemente para designar tanto o deus quanto o reino que governa, nos subterrâneos da Terra. Consta também ser chamado Serápis (deus de obscura origem egípcia). Mas nos concentraremos somente nos termos usados na Palestina antiga, portanto: Hades.

Alguns conservadores tradicionais cristãos não gostam da comparação. Mas negar que haja é negar as origens de sua própria fé. Existe uma raíz evidente entre o conceito do inferno cristão e o mundo subterrâneo grego.

1 -Para os judeus, o conceito de que o Sheol (inferno no Antigo testamento), ficasse sob a terra. Esse é um conceito firme para os gregos.
2 – Hades, o deus do submundo, assim como a figura comum do diabo, não sai de lá; do local de onde é rei.

3 – O destino dos mortos. Segundo a mitologia grega, todos os que morrem irão para o reino de Hades. E lá ocorre um julgamento onde os bons vão para um local tranquilo. Os maus vão para os domínios do Tártaro (que também é um deus além do nome do local onde está preso.),  onde ficam trancadas as bestas mais agressivas e crueis da criação. Um local de tormento.

Que os povos judaicos sob julgo romano, possam ter assimilado a religião grega é tão fato; assim como também oé que os povos negros africanos, sob o domínio europeu, assimilaram parte do cristianismo. Mas esse conceito mais próximo do grego, que do judaico, talvez só tenha sido mais intenso quando o cristianismo se separou do judaísmo, a partir do século IV.

Podemos concluir então que a visão dos primeiros cristãos vai depender do significado que distinguiam das palavras no grego e no hebraico. Se o grego era o conceito religioso imperativo, Jesus Cristo veio para impedir os cristãos de irem para o reino de Hades, que é o reino sob a terra; mas levá-los para o reino de Deus. E a sedutora promessa parecia mesmo contagiar os primeiros discípulos de Cristo. Se aqueles judeus entendiam por inferno, ou por Hades, o conceito grego, era um destino imposto a todos os homens. todos estariam fadados a irem para lá. Jesus portanto, lhes oferecia uma alternativa. A possibilidade de reinarem com ele no Céu.

Fez sentido para você? Mas ainda há a segunda possibilidade. Da interpretação das palavras da Bíblia estarem ligadas a sua raíz judaica. Neste caso, hades estaria mais para geena, bem como Geena está para Sheol.
Eles acreditavam na materialidade da criação. Isto é, que o homem só é completo caso possua corpo, alma e espírito. Se falta um deles, o ser está morto. Deste modo todos morrem e deixam de existir, “tecnicamente”. Pois deixam de ter corpo, alma e espírito. Estariam fadados a irem para a cova. Estariam destinados à sepultura. Com a raríssima exceção de alguns profetas que foram salvos por Deus, como Enoque (Hebreus 11:5) e Elias (2 Reis 2:11).

Se de fato a condenação era a morte. Jesus vinha com uma promessa de Vida Eterna. Igualmente sedutora.  Segundo os Evangelhos, ele ressuscitara após a morte com um corpo novo e especial. Esse novo corpo era capaz de conter seu poder e levá-lo instantaneamente de um lado para o outro. Atravessando inclusive paredes. Lendo os textos originais das cartas de Paulo, nota-se que aparentemente, o apóstolo creria mais nessa segunda hipótese. Tanto quando afirma do sono em cristo, quanto reafirma que ele poderá viver para nem passar pelo “sono”.

Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança. Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele. Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (1 Tessalonicenses 4:13-18).

Talvez os cristãos de hoje, leiam a Bíblia inteira como uma mensagem direta de Deus para eles. Mas não se pode negar que nesse texto acima, embora reflita a fé do seu autor, Paulo, ele endereça a carta a seus irmãos de fé em Tessalônia. Jesus ressuscitara  há poucos anos; e eles acreditavam que ele estava prestes há retornar para reerguer os mortos da cova (sheol), da Geena. Literalmente. dá-los novos corpos incorruptíveis e levá-los para de onde desfrutariam a vida eterna.

 

"O Arrebatamento da igreja" - Imagem que ilustra o Arrebatamento dos cristãos na segunda vinda do Messias. (Reprodução).
“O Arrebatamento da igreja” – Imagem que ilustra o Arrebatamento dos cristãos na segunda vinda do Messias. (Reprodução).

E o sono seria portanto na cova. Não existe, pelo menos não expresso pelos profetas que acreditavam nessa visão, que após  amorte a pessoa, sua conciência, vá para um lugar onde dormirá. É por esta razão que muitas religiões são terminantemente contra a cremação de cadáveres. Para elas, bem como possivelmente para Paulo, os mortos estão em seus respectivos corpos, dormindo. E no dia da volta de Jesus, ele os chamará de volta à vida; serão ressurretos como o Salvador.

Esse princípio teológico é mais simpático aos evangélicos que aos católicos. Basicamente por que os Evangélicos, embora se considerem como tal, parecem dar mais ênfase ao que há ao redor do Evangelho, que para seu conteúdo.

"O Sermão da Montanha" Carl Heinrich Bloch, 1890. Reprodução).
“O Sermão da Montanha” Carl Heinrich Bloch, 1890. Reprodução).

E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo” (Mateus 10:28).

Note nesse texto a evidência, como dito antes da palavra “inferno”, mas não é essa a correta. Vejamos o texto original grego.

“και μη φοβηθητε απο των αποκτεινοντων το σωμα την δε ψυχην μη δυναμενων αποκτειναι φοβηθητε δε μαλλον τον δυναμενον και ψυχην και σωμα απολεσαι εν γεεννη”.

A palavra correta ali é Geena. Então uma tradução mais literal seria:  “E não temam os que matam o corpo mas  não podem matar a psykhé (sua essência); temam antes, aquele que pode mandar para o geena a psykhé e o corpo.”

Se o conceito de que após a morte apenas o espírito, não a alma, sai do corpo. Que esse espírito que deixa o corpo não leva consigo a consciência que nos torna humanos; como devem crer os que imaginam o sono da morte, então porque Jesus estabelece um cenário onde a psykhé (alma) não esteja na cova, no lixo, ou no pó. Existe então independente do corpo? é isso que Jesus diz.  Mas este texto não o convenceu?

"O Rico e Lázaro" - Parábola de Jesus, (Reprodução).
“O Rico e Lázaro” – Parábola de Jesus, (Reprodução).

Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite”  (Lucas 16:19-31).

Note caro leitor. A palavra que substitui inferno neste texto, (Lucas 16:23)  é Hades.  E neste trecho Jesus está falando em morrer com um outro sentido; mais espiritual. Note que segundo a parábola que ele conta,  para tornar simples sua doutrina aos discípulos;  toma como exemplo um rico e um pobre. O rico é maldoso, sem caridade pelo próximo. O pobre é injustiçado pela vida. Ambos morrem. E Jesus não diz para onde seus corpos vão, mas cita para onde suas “almas”  foram. O pobre mendingo Lázaro, foi privilegiado.  Ele  foi para  “junto de Abraão” (que a Igreja Católica trata como uma alegoria proposta pelo próprio Cristo para ilustrar Deus, ou ele mesmo). Já o rico foi para o suposto destino de todos os homens: Hades.

E nesse contexto, segundo a história que o Cristo contava aos discípulos, a vida na terra prossegue normalmente. O rico pede a Abraão, ou Deus, que o permita voltar a terra e contar aos seus parentes sobre o destino daqueles. Mas a volta lhe é negada. De acordo com Abraão,, não era necessário que o rico retornasse (entenda-se por ressuscitar). Para isso, os vivos contavam com os profetas. Jesus propunha uma forma de encarar o pós vida diferente, do que os judeus de sua época.

Veja mais um exemplo, antes de prosseguirmos:

Representação artística da crucificação. No centro jesus e ao seu lado, dois mal feitores. (Reprodução).
Representação artística da crucificação. No centro jesus e ao seu lado, dois mal feitores. (Reprodução).

E um dos malfeitores que estavam pendurados blasfemava dele, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós. Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez. E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”  (Lucas 23:39-43).

Se a  alma, assim como pregam os protestantes, está presa ao corpo em sono, como essa afirmação de Jesus se faz verdadeira? Em busca de tentar justificar sua afirmação  e suas crenças, eles distorcem as palavras do próprio Cristo ao alegarem que Jesus estaria se referindo ao “hoje de Deus”.  Pois para Deus, em seu tempo, um dia poderia ser mil anos; e  mil anos, seria  um dia (2 Pedro 3:8).  Uma interpretação medíocre que no texto apostólico, apenas está tentando descrever o que é eternidade. Mas para os de visão limitada, é uma forma de Deus fazer promessas sem ter que necessariamente cumpri-las imediatamente. Ou seja, sendo eterno, Ele pode cumpri-las  nunca; já que para o eterno, o “nunca” não existe. E se você parte desse princípio,  que Deus usa o seu “tempo” para procrastinar em suas promessas, ou antecipar sua ira, qualquer informação das que eles mesmos creem como sendo fato; pode não ser “exatamente assim”. Se você acredita que Jesus estava tentando consolar um homem que morria ao lado dele. É  no mínimo crueldade achar que Jesus prometera a  salvação a aquele rapaz, quando na verdade, o tal condenado estava rumo ao Geena. Ou ao Sheol. Ou vai negar que se de fato ele dormiu, e aguarda a ressurreição, não é lá onde o dito rapaz está? (se você crer que o rapaz não foi, como prometido para o paraíso naquele dia).

Como dito. Consideram-se cristãos, mas não importa o que o Cristo teria dito, mas sim o que os discípulos possam ter escrito em cartas endereçadas a outros.

 

Compreendemos até aqui que a visão de inferno dos primeiros cristãos não era o  mesmo. Como também não o é, atualmente. Sendo possível que cristãos protestantes pensem, sem dar conta, crerem que irão para o sheol (túmulo), onde ficarão esperando a ressurreição. Enquanto católicos acreditam que vão para o Hades, o mundo espiritual a parte deste mundo, e igualmente sem darem conta. Mas onde entra o diabo nessa história?

 

Se não entendermos a mentalidade de salvação que os cristãos de hoje têm, não poderemos entender as contradições,  quais as noções de diabo eles possuem. Para os primeiros cristãos, não havia uma personificação do mal. Uma entidade soberanamente maléfica que fosse, em si mesma, ardilosa o suficiente para afastar os cristãos de Deus. Esse conceito começou no Novo Testamento sim. Mas foi somente na idade média onde ele chegou ao seu auge.

Espírito, segundo o que você leu acima, é o motor do corpo. Isso, é importante deixar absolutamente claro, que na visão judaica e cristã do primeiro século. espíritos seriam portanto não uma entidade  em si, mas uma tendência. Para aqueles primeiros cristãos, e isso é evidenciado ao lermos seus livros; expulsar demônios era o mesmo que curar. Expulsar espíritos impuros, era o mesmo que exorcisar determinadas tendências que consideravam maléficas.

Mas e as palavras diabo, satanás, inimigo, entre outras? são exatamente o que elas querem dizer. Sem  a  interpretação mística que não está nos textos, mas fora criada pelos teólogos medievais. Além logicamente das passagens onde Jesus e/ou os apóstolos citam nomes que são comumente interpretados como sendo diabo, não existe nenhuma relação entre elas.

 

Representação do evangelho de Mateus , capítulo 14, versículos de 24 a 32. Representa o episódio no qual Cristo caminhou sobre as águas e Pedro tentou fazê-lo. Devido a sua falta de fé, o discípulo olhou para baixo e sentiu medo. Isso fez com que começasse a afundar. Jesus o salvou. (Reprodução).
Representação do evangelho de Mateus , capítulo 14, versículos de 24 a 32. Representa o episódio no qual Cristo caminhou sobre as águas e Pedro tentou fazê-lo. Devido a sua falta de fé, o discípulo olhou para baixo e sentiu medo. Isso fez com que começasse a afundar. Jesus o salvou. (Reprodução).

E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus. Então mandou aos seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era Jesus o Cristo. Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia. E Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens. Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me; Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”  Mateus 16:13-25).

somente alguém muito apegado à religiosidade, interpreta que quando Jesus chama Pedro pelo nome “Satanás”, está falando  com outra pessoa, que não ao próprio Pedro. Embora equívoco, é compreensível. Quem lê esses trechos onde um satanás, um diabo, ou um inimigo apareçam, já tem em sua mente uma visão concebida de uma entidade corporificada de puro mal. Mas estão apenas distorcendo o sentido do próprio texto. Que é bem claro.

Pedro faz uma afirmação logo acima. Confessa diante de todos que Jesus é o Messias (“משיח”, transliterando: Mashíach) judeu, ou Cristo (no grego“Χριστός”, transliterado: Khristós ), ou o “Ungido”. Por efeito Jesus ressalta que essa Verdade Superior não provinha da mentalidade carnal (carne e sangue) do discípulo, mas da parte de Deus. E ainda muda o nome dele que até aquele momento era conhecido como Simão Barjonas, para  “Ke:pha” (em aramaico e hebraico “כיפא”; no grego “Πέτρος”, transliterado:Petros), ou na tradução para o português, “pedra”, “rocha”.

Quando Jesus conta para seus seguidores o que teria de enfrentar, Pedro tem a reação mais humana possível. Ele pede a Jesus para que não sofra tal mal. Que não se submetesse a tanto sofrimento, e que tivesse pena de si mesmo. Jesus imediatamente o repreende e diz: “Para trás de mim, opositor, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens” (Mateus 16:23). Note que a ênfase dada ao satanás, que significa qualquer tipo de adversário, ou oposição, só há nos textos latinos. No original grego, essa ênfase não existe. E muito menos a palavra satanás  é representada como nome de alguém, como é feito no nosso idioma; colocando-o iniciado pela letra “S” maiúscula. Mas é justamente por não ser nome próprio. É um adjetivo que pode ser empregado a qualquer pessoa que se comporte como um adversário. Seja ele adversário para as questões seculares, ou para as questões espirituais.

Com efeito, este não é um fato isolado na Bíblia. Todas as ocorrências desta palavra estão associados a alguém (humano), que tem alguma ação em oposição ao representante de Deus. Com efeito no Antigo Testamento o diabo nem é necessário. Pois para o que entendemos por ações maléficas, o próprio Deus é capaz de realizar, sem a necessidade de uma entidade opositora.

Então disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta. Tu falarás tudo o que eu te mandar; e Arão, teu irmão, falará a Faraó, que deixe ir os filhos de Israel da sua terra. Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó, e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas”   (Êxodo 7:1-3).

Então ele disse: Ouve, pois, a palavra do Senhor: Vi ao Senhor assentado sobre o seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua mão direita e à sua esquerda. E disse o Senhor: Quem induzirá Acabe, para que suba, e caia em Ramote de Gileade? E um dizia desta maneira e outro de outra. Então saiu um espírito, e se apresentou diante do Senhor, e disse: Eu o induzirei. E o Senhor lhe disse: Com quê? E disse ele: Eu sairei, e serei um espírito de mentira na boca de todos os seus profetas. E ele disse: Tu o induzirás, e ainda prevalecerás; sai e faze assim. Agora, pois, eis que o Senhor pôs o espírito de mentira na boca de todos estes teus profetas, e o Senhor falou o mal contra ti”   (1 Reis 22:19-23).

E aconteceu no outro dia, que o mau espírito da parte de Deus se apoderou de Saul, e profetizava no meio da casa; e Davi tocava a harpa com a sua mão, como nos outros dias; Saul, porém, tinha na mão uma lança. E Saul atirou com a lança, dizendo: Encravarei a Davi na parede. Porém Davi se desviou dele por duas vezes” (1 Samuel 18:10,11).

Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas”   (Isaías 45:7).

Não é necessário enchermos este texto com os mandamentos recorrentes para que os servos de Deus e profetas matem pessoas inocentes a serviço dos interesses do povo israelita. Nem quando a Bíblia discreve o que supostamente, seria o próprio Deus executando os infiéis. Mas não podemos negar que espíritos impuros, diabo e satanás estão no Antigo Testamento também. Contudo a personificação do mal  não se faz necessária. Deus é dotado, segundo a crença judaica, de uma personalidade extremamente questionável. Contrariando o que entendemos pela relação entre um Pai e seu filho.

Com o advento de Cristo, a situação muda completamente. Deus passa a ser tratado como o Pai, e os cristãos, como irmãos. Mas como justificar a presença do mal nos textos bíblicos? Aí entra a figura do diabo. O que para os primeiros cristãos do século I, era uma razão para atentarem-se para o que era prudente. Com o passar do tempo, satanás passou a ser um ser único. Como Deus, que é único; o diabo, lúcifer, satanás, o filho da perdição, anjo decaído, são meros nomes de uma criatura única e razão do mal.

 

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Algumas religiões antigas, ou a maioria, por sinal. Se valiam da eterna luta do bem, contra o mal. Isso dava um sentido a vida de seus seguidores. No caso das mitologias mais conhecidas, como a grega e a romana, ou até mesmo a judaica, até certo ponto; não existem deuses bons por completo, nem ruins. Mas deuses com características dos seres humanos. Eles são dotados da capacidade de fazer tanto o bem, quanto o mal, a depender de seus interesses.

Mas algumas religiões minoritárias, dividiam suas deidades em entidades de pura bondade, e de pura maldade. E uma delas se mostra como tendo fortes chances de ser uma influência real para o cristianismo, na sua concepção da personificação do mal. Possivelmente você nem nunca deva ter ouvido falar de Zaratustra. Fundador do Masdeísmo (ou Zoroastrismo), ele foi um poeta e profeta que viveu no Século VII a.C. (cerca de dez mil anos atrás), na região onde era a antiga Pérsia. Também pode ser conhecido pelos nomes de Zoroastro e Zoroastres. Mas ele foi o verdadeiro inovador em sua época. O que muitos acreditam falsamente que o judaísmo teria sido a primeira religião monoteísta. Zoroastro criou a suposta mais antiga religião monoteísta na humanidade. Sendo que hoje muitos de nós consideramos  como primitivos, os ensinamentos dos evangelistas no primeiro século, imagine como deve ter sido ensinar há dez mil anos atrás. historicamente, os israelitas tiveram contato com os ensinamentos de Zaratustra, durante o cativeiro na Babilônia.

Na doutrina zaratustriana, antes de o mundo existir, reinavam dois espíritos ou princípios antagónicos: os espíritos do Bem (Ahura Mazda, Spenta Mainyu, ou Ormuz) e do Mal (Angra Mainyu ou Arimã). Divindades menores, gênios e espíritos ajudavam Ormuz a governar o mundo e a combater Arimã e a legião do mal. Entre as divindades auxiliares, como consta no Avesta a mais importante era Mithra, um deus benéfico que exercia funções de juiz das almas. No final do século III d.C, a religião de Mithra fundiu-se com cultos solares de procedência oriental, configurando-se no culto do Sol. Arimã é representado como uma serpente. Criador de tudo que há de ruim (crime, mentira, dor, secas, trevas, doenças, pecados, entre outros), ele é o espírito hostil, destruidor, que vive no deserto entre sombras eternas. Ormuzd, no entanto, é o Criador original, organizador do mundo de modo perfeito. Ahura Mazda é representado também como o divino Lavrador, o que mostra o enraizamento do culto na civilização agrícola, na qual o cultivo da terra era um dever sagrado. No plano cosmológico, contudo, ele é o criador do universo e da raça humana, com poderes para sustentar e prover todos os seres, na luz e na glória supremas.

Bem e Mal não são apenas valores morais reguladores da vida cotidiana dos humanos, mas são transfigurados em princípios cósmicos, em perpétua discórdia. A luta entre Bem e Mal origina todas as alternativas da vida do universo e da humanidade. A vitória definitiva de Ormuzde sobre Arimã só poderia ocorrer se Zaratustra conseguisse formar uma legião de seguidores e servidores, forte o bastante para vencer o Espírito Hostil, e expurgar o Mal do universo. Nesse sentido, Bem e Mal são princípios criadores e estruturadores do universo, que podem ser observados na natureza e encontram-se presentes na alma humana. A vida humana é uma luta incessante para atingir a bondade e a pureza, para vencer Angra Mainyu e toda a sua legião de demônios cuja vontade é destruir o mundo criado por Ahura Mazda.

A doutrina de Zaratustra é escatológica. De acordo com os seus preceitos, o mundo duraria doze mil anos. No fim de nove mil anos, ocorreria a segunda vinda de Zaratustra como um sinal e uma promessa de redenção final dos bons. Isso seria seguido do nascimento miraculoso do Saoshyant, semelhante ao Messias hebreu, cuja missão seria aperfeiçoar os bons para o fim do mundo, da história humana, enfim, para a vitória do Bem sobre as forças do Mal. A cada mil anos viria um profeta/messias (Saoshyant). Assim, nos últimos três milênios, três Saoshyant preparariam a completude do grande ano cósmico. É neste sentido que Nietzsche menciona Zaratustra como aquele que compreendeu a História em toda a sua completude. Cada série de desenvolvimento da História seria presidida por um profeta, que teria seu hazar, seu reino de mil anos. O Zaratustra histórico, no entanto, anuncia a chegada do tempo em que surgirá da raça persa o Shah Bahram, o Senhor Prometido, o Salvador do Mundo, o Grande Mensageiro da Paz. No final dos tempos haveria o julgamento derradeiro de todas as almas e a ressurreição dos mortos. Não fica claro se o inferno tem duração eterna, se os maus se agitarão eternamente “nas trevas”. Nos Gathas, cantos de Zaratustra, consta também que o mal poderia ser banido para sempre do universo, com o nascimento de um novo mundo, física e espiritualmente perfeito, aqui na Terra. Não seria possível, assim, a coexistência de um mundo físico degradado e um mundo hiperfísico perfeito.

Os gregos enfatizaram, no profeta persa, mais a astrologia e a cosmologia do que o dualismo moral. Para eles, Zoroastro é um ser mítico, um astrólogo, legendário fundador da seita dos magos. Os aspectos cosmológicos, soteriológicos (relativos à parte da Teologia que trata da salvação do homem), teológicos e morais do Masdeísmo estavam contidos nos Pahlavi (principalmente no Denkard), livros baseados no Avesta. Mas esses textos estão perdidos.

Zaratustra - representação artística de Raffaello Sanzio; (Reprodução: Wikipédia).
Zaratustra – representação artística de Raffaello Sanzio; (Reprodução: Wikipédia).

Mas  talvez você possa perguntar: “Como o Masdeísmo pode ter inspirado a religião judaica,  ou mesmo ter sido uma religião monoteísta, quando ela se fundamenta no princípio de que há um Deus bom e outro mau?”

O dualismo cósmico e teogônico do Masdeísmo está intimamente relacionado ao “dualismo moral”. Zaratustra, com a sua mensagem divina, provocou uma verdadeira transformação no modo de pensar da sua civilização, contrariando o tradicional pensamento dos sábios de sua época. Sua mensagem baseava-se nos Gathas, cantos entoados com o objetivo de serem um guia para a humanidade – continham o triplo princípio de boa mente, boas palavras e boas ações. O Bem e o Mal, para Zaratustra, manifestam-se também na alma humana, e a única forma de poder organizar o mundo e a sociedade é estando o Bem acima do Mal. Este não traz contribuição alguma para a construção de uma vida boa, já que impossibilita uma relação equilibrada entre ser humano, sociedade, natureza e o ser. Zaratustra propõe que o homem encontre o seu lugar no planeta de forma harmoniosa, buscando o equilíbrio com o meio (natural e social), respeitando e protegendo terra, água, ar, fogo e a comunidade. O cultivo de mente, palavras e ações boas é de livre escolha: o indivíduo deve decidir perante as circunstâncias que se apresentam em determinado fato. A boa deliberação, ou seja, uma boa reflexão a respeito de cada ação faz surgir uma responsabilidade social para colaborar com o projeto que Deus propôs ao mundo. Os seres humanos, portanto, possuem livre-arbítrio e são livres para pecar ou para praticar boas ações. Mas serão recompensados ou punidos na vida futura conforme a sua conduta.

Desta forma Deus é uma entidade com dois aspectos. Uma espécie de dualidade criadora. Como  a “trindade” está para o cristianismo. Mas a porção boa, de Deus é superior ao mal e no final, irá aniquilar seu lado negativo com a ajuda da terceira pessoa da divindade, o profeta escolhido.

Como já mencionado, a base da doutrina de Zaratustra é o dualismo Bem-Mal. O cerne da religião consiste em evitar o mal por intermédio de uma distinção rigorosa entre Bem e Mal. Além disso, é necessário cultivar a sabedoria e a virtude, por meio de sete ideais, personificados em sete espíritos, os Imortais Sagrados: o próprio Ahura Mazda, concebido como criador e espírito santo; Vohu Mano, o Espírito do Bem; Asa-Vahista, que simboliza a Retidão Suprema; Khsathra Varya, o Espírito do Governo Ideal;Spenta Armaiti, a Piedade Sagrada; Haurvatãt, a Perfeição; e Ameretãt, a Imortalidade. Estes deuses enfrentam constantemente as forças do Mal, os maus pensamentos, a mentira, a rebelião, a doença e a morte. O príncipe destas forças é Angra Mainyu, o Espírito Hostil, também conhecido como Arimã. A adoração a Ahura Mazda ou Ormuz pode também ser chamada Mazdayasna (Adoração ao Sábio). O culto não requeria templos, pois Deus era representado pelo fogo, considerado sagrado e símbolo de pureza. A chama era mantida constantemente em altares, erguidos geralmente em lugares elevados das montanhas, onde se faziam oferendas. Os magos, detentores de segredos e de verdades reveladas, dirigiam os ritos e os cultos – são referidos na Bíblia, no Novo Testamento. O rei da Pérsia teria enviado a Israel sacerdotes do Zoroastrismo, que seguiram uma estrela até Belém, no intuito de encontrar o Salvador, ou Messias.

Zaratustra transmitira, aos magos e adeptos, os segredos e a verdade suprema que lhe foram revelados por Ahura Mazda por meio de um anjo chamado Vohu Manõ. Assim como o Cristianismo, o judaísmo e o islamismo, também no zoroastrismo a revelação divina é elemento essencial. A religião Masdeísta diferencia-se das existentes até então não só pelo dualismo Bem–Mal, mas também pelo caráter escatológico. Entre os seus dogmas, estão a vinda do Messias, a ressurreição dos mortos, o julgamento final e a translação dos bons para o paraíso eterno. Inclui também a doutrina da imortalidade da alma e o seu julgamento. Conforme os seus méritos ou pecados, elas iriam para o mundo dos justos (paraíso), para a mansão dos pesos iguais (purgatório) ou para a escuridão eterna (inferno). Não sepultavam, incineravam ou jogavam os mortos em rios, mas ficavam expostos em altas torres a céu aberto. Os corpos dos justos, salvos da destruição, secariam; já os dos injustos seriam devorados pelas aves de rapina. Desse modo, Zaratustra pode ser visto como um dos primeiros teólogos da história por ter erigido um sistema de fé religiosa desenvolvido e estruturado. Enquanto religião ética, o Masdeísmo possuía a missão de purificar os costumes tradicionais de seu povo a fim de erradicar o politeísmo, o sacrifício de animais e a magia. Com isso, o culto poderia atingir uma dimensão ético-espiritual elevada. Zaratustra pregava que o esforço e o trabalho eram atos santos. Eis algumas frases ou ditos a ele atribuídos: “O que vale mais num trabalho é a dedicação do trabalhador”. “O que lavra a terra com dedicação tem mais mérito religioso do que poderia obter com mil orações sem nada fazer”. “Aquele que diz uma palavra injusta pode enganar o seu semelhante, mas não enganará a Deus.” “Deus está sempre à tua porta, na pessoa dos teus irmãos de todo o mundo.” “O que semeia milho, semeia a religião. Não trabalhar é um pecado.”

A Origem de Fato, do diabo.

 

O diabo portanto, trazendo para o contexto atual do cristianismo, faz parte da dualidade bem mal de Deus. Não como um opositor de fato, mas um “mal necessário. E desde o período medieval, a Igreja tem pregado com bastante ênfase e furor, os poderes satânicos. Aos poucos a doutrina cristã perdeu o foco. Cristo deixou de ser o centro da cultura e mitologia do cristianismo. Passando a dividir a posição de culto com o diabo, agora, personificado na figura de lúcifer, uma criatura de poderes semelhantes ao do próprio Jesus. Não existindo portanto, a escolha pelo que, se não estiver com Cristo, automaticamente com o diabo está.

 

Estátua de bronze mede 2,7 metros e representa um ser hermafrodita alado conhecido como Baphomet.
Estátua de bronze mede 2,7 metros e representa um ser hermafrodita alado conhecido como Baphomet.

Por séculos, o mau encarnado, satanás, foi usado para incutir o medo sobre os cristãos. Foi lhe dado forma, apesar que se, usado os nomes já citados neste texto, para tentar alegar ser ele, tal criatura; em nenhum momento foi descrito como seria. Mas a igreja não só lhe deu fisionomia, como tratou de atribuir um perfil psicológico acima do cruel.

Alegoria: Sátiro - OLYMPUS DIGITAL CAMERA (Reprodução: Wikipédia).
Alegoria: Sátiro – OLYMPUS DIGITAL CAMERA (Reprodução: Wikipédia).

A primeira personificação, ou a mais famosa, remete a uma criatura conhecida como sátiro. Com origem grega,  era um ser da natureza com o corpo metade humano e metade bode. Equivale ao fauno da mitologia romana.  E na mitologia dos povos gregos, os sátiros (em grego, Σάτυροι, Sátyroi.) são divindades menores da natureza com o aspecto de homens com cauda e orelhas de asno ou cabrito, pequenos chifres na testa, narizes achatados, lábios grossos, barbas longas.

Normalmente eram-lhes consagrados o pinho e a oliveira e apesar de serem divinos, não eram imortais. Viviam nos campos e bosques e tinham freqüentes relações sexuais com as ninfas (principalmente as Mênades, que a eles se juntavam no cortejo de Dionísio).

E uma coisa ligou-se à outra. A aparência dos sátiros com a característica personalidade de Dionísio, foram dando forma ao anti-Deus cristão. Curiosamente, os rituais realizados pelos sátiros em comunhão  religiosa e sexual com as ninfas, vieram a ser  comparados aos sabahs das “bruxas”; caçadas mortalmente pela inquisição católica.

Estátua do Deus Grego Dionísio. (Reprodução).
Estátua do Deus Grego Dionísio. (Reprodução).

No entanto, ainda falando de Dioniso, Diónisos ou Dionísio (em grego: Διόνυσος, transl.: Diónysos) é na antiga religião grega o deus dos ciclos vitais, das festas, do vinho, da insânia, do teatro, dos ritos religiosos mas, sobretudo, da intoxicação que funde o bebedor com a deidade. Equivalente ao romano Baco. Foi o último deus aceito no Olimpo, filho de Zeus e da princesa Semele, também foi o único olimpiano filho de uma mortal, o que faz dele uma divindade grega atípica.

Dionísio era representado nas cidades gregas como o protetor dos que não pertencem à sociedade convencional e, portanto, simboliza tudo o que é caótico, perigoso e inesperado, tudo que escapa da razão humana e que só pode ser atribuída à ação imprevisível dos deuses.

Note que esta divindade tem semelhanças com o diabo cristão. Ambos tem poderes divinos. Ambos inferiores ao Criador, mas iguais os seres humanos, eles se apegaram aos prazeres da vida. Dionísio é evidentemente um “festeiro”. Entregue à luxúria e às concupiscências, que tanto a Bíblia pede distância. Foi questão de “ligar o nome à pessoa”, para que do sátiro, que começou a dar a forma a entidade personificada do mal, para que Dionísio fosse  moldado à  base para seu perfil psicológico.

A Igreja medieval tinha as formas básicas para criar uma mitologia própria. A do Lúcifer, como entidade distinta e única. Aos poucos tal ser era o sinônimo do que a população cristã mais temia. Qual é seu pior medo? Certamente o diabo é mais feio e mais cruel. Mas conseguir ver a verdadeira forma do trevoso, que basicamente era a de um sátiro com a pele vermelha (essa cor por causa de sua ligação com o sexo e os prazeres carnais); não era uma situação muito comum. Antes, muito provavelmente, ele apareceria sedutoramente afim de convencê-lo a pecar. E o poder de engano do ser diabo, foi exacerbado ao máximo. Qualquer um podia ser o diabo. Mais que isso, qualquer situação poderia ser um plano daquele, para levar você à perdição.

As pessoas viviam sob o pânico. Se antes, a cultura de um ser demoníaco, querendo devorar suas almas, já os impunha pavor. Agora era um ser extremamente real. Ele tinha corpo e tinha vontade. E não descansaria até fazer você morrer e ir para o inferno. O que era abstrato para os primeiros cristãos, agora a igreja lhes dava forma e paladar. O diabo podia ser seu vizinho, o namorado de sua filha, podia estar lá fora, na mata; espreitando você.  E como era de se esperar, esse medo contagiante gerou muito lucro monetário e espiritual a Igreja. Não só o número de fiéis aumentava dia a dia, como também as pessoas estavam dispostas a pagar o que fosse, para se verem livres do mal.

A figura de um ser diabo, foi e é o motivo para grande parte dos cristãos serem o que são. Não é pelo amor de Deus, o significado Espiritual do gesto de Jesus, nem muito menos o amor à verdade da vida após a morte; o que os leva para dentro dos templos é o pavor de serem condenados eternamente a serem as vítimas de satanás.

Sem a percepção mais intríncica deste significado. Os cristãos hoje cultuam a dois deuses. Um Bom, que chamam de Pai, ou mesmo de Jesus. E outro mal, a quem chamam Diabo. O ódio ao “adversário” é quase uma mistura entre medo e admiração. E sem notarem, eles dão ao ser que tanto detestam, poderes iguais ao do Criador.

Numa batalha de egos, onde de um lado está Deus, provando a fé de seus filhos e vendo se eles são mesmo obedientes. Do outro o Diabo, tentando o ser humano para provar para Deus que sua criação é falha. E até mesmo esse conceito é uma interpretação torta de uma passagem que acontece com o profeta Jó, descrita em seu livro no Antigo Testamento.  A teologia dos conceitos místicos para coisas que não estão no texto. Satanás aparece no texto. Mas de forma alguma é o mesmo que os cristãos temem, e que teria tentado Jesus no deserto. Esse é apenas um adversário. Pode ser alguém que de fato seja um anjo, mas não necessariamente é a “encarnação do mal”. Este, e fica notável apenas lendo o texto, é tão somente alguém a serviço de Deus. É Deus quem quer provar se Jó tem a fé necessária. E sob a ordem do Criador, o profeta tem a vida mais atormentada de toda a Bíblia.

Ao colocar o adversário do livro de Jó, como o diabo mau e anti-divino que creem, os cristãos estão se contradizendo. Pois a figura dos adversários que aparecem contra Jó, na realidade se beneficiam não de fraquezas humanas, mas da dúvida de Deus. É o Criador que precisa se certificar que Jó realmente não blasfema contra Ele. E neste conceito, esse opositor é um servo para Deus. Lembre-se. No Antigo Testamento, o que consideramos por bem e por mau, ambas as situações são controladas por Deus. Ele não possui opositores à Ele, pois se contrário fosse, ele não se consideraria “Único”.

Mas o que aconteceu com Jó, apenas serviu aos interesses dos padres e mais recentemente, aos pastores. O diabo passou a ter autonomia para destruir a moral, a vida social e familiar de alguém, com o simples intuito de causar briga entre a pessoa e o Criador.

Representação do "Dragão", descrito em Apocalipse 12. (Reprodução).
Representação do “Dragão”, descrito em Apocalipse 12. (Reprodução).

Mas se o diabo não é a personificação de um anjo rebelde, o que dizer destes textos?

Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.
Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardônia, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados.
Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas.
Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti.
Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas.
Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti.
Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu e te tornei em cinza sobre a terra, aos olhos de todos os que te vêem.
Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; em grande espanto te tornaste, e nunca mais subsistirá.”  (Ezequiel 28:11-19).
Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!
E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte.
Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.
E contudo levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo.
Os que te virem te contemplarão, considerar-te-ão, e dirão: É este o homem que fazia estremecer a terra e que fazia tremer os reinos?
Que punha o mundo como o deserto, e assolava as suas cidades? Que não abria a casa de seus cativos?
Todos os reis das nações, todos eles, jazem com honra, cada um na sua morada.
Porém tu és lançado da tua sepultura, como um renovo abominável, como as vestes dos que foram mortos atravessados à espada, como os que descem ao covil de pedras, como um cadáver pisado.
Com eles não te reunirás na sepultura; porque destruíste a tua terra e mataste o teu povo; a descendência dos malignos não será jamais nomeada.
Preparai a matança para os seus filhos por causa da maldade de seus pais, para que não se levantem, e nem possuam a terra, e encham a face do mundo de cidades.
Porque me levantarei contra eles, diz o SENHOR dos Exércitos, e extirparei de babilônia o nome, e os sobreviventes, o filho e o neto, diz o SENHOR.
E farei dela uma possessão de ouriços e a lagoas de águas; e varrê-la-ei com vassoura de perdição, diz o Senhor dos Exércitos.
O Senhor dos Exércitos jurou, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará
(Isaías 14:12-24).

E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos;
Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus.
E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele.
E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite.
E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte.
Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo”
(Apocalipse 12:7-12).

Por algum tempo, os teólogos da Igreja medieval não viam esses textos como ligados. Mas após terem seu diabo pronto. Aí tudo passou a fazer sentido. Não importava a quem os textos fossem dirigidos, mas sim o que os textos diziam. E por meio das palavras usadas, eles concluíram que devia se tratar da mesma entidade: satanás.

Ezequiel 28:11-19,

Mas note que no primeiro texto, em Ezequiel 28:11-19, a mensagem do Filho do homem, (não confundir com Jesus, pois aí é como o próprio profeta Ezequiel se auto-invocava), destina-se a duas “pessoas” distintas.  A eligia de Ezequiel  fala a um protetor de Tiro, que seria seu príncipe, e fala à própria cidade, ou ao Governo.

Muitos eruditos conservadores relacionam o príncipe de Tiro com Satanás. Entretanto, algumas afirmações, tais como “não passas de homem e não és Deus” (28:2) denotam que esta é uma referência a um príncipe humano, e não a Satanás. Quem foi o príncipe de Tiro?

Os eruditos evangélicos têm sustentado diferentes posições com relação à identidade do príncipe de Tiro. Alguns consideram que a linguagem do capítulo 28 é altamente poética, com figuras de expressão que têm o propósito de enfatizar a arrogância do príncipe de Tiro. Esses comentaristas entendem que se trata de um príncipe humano, embora haja divergências quanto a quem seja exatamente tal pessoa. Alguns o identificam como tendo sido Ethbaal III, que reinou de cerca de 591 a 572 a.C. Outros o identificam como Ithobal II, que pode ter sido a mesma pessoa, com um nome diferente. Alguns comentaristas propõem que a linguagem empregada não pode ser aplicada a nenhuma pessoa especificamente, mas que há uma personificação da própria cidade. O “rei” serviria assim como um símbolo do governo e do povo como um todo.

Mas Uma coisa que os próprios intérpretes que começaram a estudar a profecia de Ezequiel relevaram é o fato simbólico. Note. Quando se referia ao príncipe de Tiro, Deus, segundo os teólogos é extremamente simbólico. Mas quando se refere ao Querubim do Edem, Ele já estaria sendo literal e falando do diabo. Mas faz sentido? Ou a fala do diabo só faz sentido para eles porque eles já conceberam a entidade como a personificação do mal?

Antes de tudo, caro leitor, o texto fala de querubim. E você sabe o que é tal criatura?  Querubim (do Hebraico כרוב – “keruv” ou do plural כרובים – keruvim) é uma criatura sobrenatural, espiritual, mencionada várias vezes no Tanakh (ou o Antigo Testamento), em livros apócrifos e em muitos escritos judaicos. Em uma das interpretações, os querubins seriam anjos e/ou animais em segundo lugar na hierarquia celeste, logo abaixo dos Serafins. Numa visão moderna, tendo uma origem em parte do Judaísmo, o querubim é um ser em forma de um bebê alado que estava sobre Propiciatório da Arca da Aliança, sendo este ponto de vista anacrônico em relação a estes seres, originada do Renascimento, já que, como bem relatou o historiador judeu Flávio Josefo, a representação dos querubins tinha sido esquecida já no século I d.C..

 

Estamos falando no texto do príncipe de tiro, e em seguida Ezequiel nos dá símbolos diversos, de um Querubim protetor no Éden, a sua expulsão . Mas porque isso foi ligado à figura de Satanás? Lembre-se do conceito  mais básico que a própria Bíblia pede? Não ponha palavras no texto onde elas não estão. Se você vir a palavra diabo, ou satanás neste texto. é o conceito medieval que tem sido passado dentro da coutrina cristã. O texto fala de um “querubim”, mas ninguém se pergunta como o diabo seria um querubim.

Pela própria doutrina do diabo, ele seria um anjo poderoso e superior. Líder da guarda de Deus. Acima dele somente o próprio Deus. Tato que foi necessário ser enfrentado pelo próprio Miguel, príncipe dos anjos. Como uma criatura, que é inferior aos serafins, pode ser o  msmo diabo? É um conceito que não converge para o que a Igreja prega. Mesmo assim, seus defensores estão acostumados a abrir mão da lógica, desde que não pervertam sua noção pré-estabelecida.

Outro ponto que ressalta-se, é a diferença entre o jardim e o Éden:

E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado. E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços. O nome do primeiro é Pisom; este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdélio, e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe. E o nome do terceiro rio é Tigre; este é o que vai para o lado oriental da Assíria; e o quarto rio é o Eufrates. E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar” ( Gênesis 2:8-15).

Cartografia - Possível localização geográfica do chamado "Éden".
Cartografia – Possível localização geográfica do chamado “Éden”.

Éden não é o jardim, mas sim o jardim estava no Éden. É muito claro quando se lê o texto, em vez de ouvir falar sobre o que o texto diz. Esta é uma região geográfica. Um ponto na terra. Ora, mas o diabo não foi expulso do céu? Então deve ter havido duas expulsões; uma do céu e a outra do Éden, ressaltando-se porém que a Bíblia não liga esses acontecimentos. A origem do termo “Éden” em hebraico parece derivar da palavra acade edinu, que deriva do sumério E.DIN. Em todas estas línguas a palavra significa planície ou estepe. A Septuaginta traduz do hebraico (gan) “jardim” para palavra grego (pa·rá·dei·sos) paraíso. Devido a isso, temos a associação da palavra portuguesa paraíso com o jardim do Éden. A fim de localizar Eden é preciso entender as palavras antigas a ser utilizado. A “fonte” ou “cabeça” do rio é o que nós chamaríamos de “boca” do rio. Portanto, todos os quatro rios que deságuam no golfo Pérsico. Os rios Tigre e Eufrates são fáceis de localizar.Speiser identifica as possibilidades de os outros dois como a = Giom Diyala, Kirkha, ou Kerkha e = Psihon Kerkha, Karun, ou Wadi er-Rumma respectivamente.

Cartografia - Possível Localização geográfica do chamado "Éden".
Cartografia – Possível Localização geográfica do chamado “Éden”.

Se Giom é identificado  como Kerkha, deste modo, os rios do Éden estão listados na direção de leste a oeste, e o Pisom seria o rio Karun na Elam. Se Eridu puder ser equiparado a Eden, consequentemente, o Jardim estaria a leste de Eridu, onde um  ramo do canal  poduziu colheitas abundantes (Fischer 1996, 222).

Note-se que naquela época o golfo Pérsico teria sido estendido por todo o caminho de volta para Eridu e Ur.

Há uma mais nova  identificação do rio Pisom com o Batin Wadi que foi visto a partir de fotos de satélite. Wadi Batin é um rio onde ocasionalmente há   secas. Mas ao mesmo tempo ele poderia  ter ligado os  rios Tigre e Eufrates. Temos visto  que o Jardim do Éden pode estar  localizado no último? Esta é uma possibilidade muito boa. O Giom seria então identificado com o rio Karun na Elam. Alguns concordam  que a palavra hebraica “Eden” origina-se  da palavra suméria “Edin”, que significa “simples”,  e seu equivalente acadiano é edinu (Fischer 1996, 223) que se refere à terra entre os rios Trigris e Eufrates.

 

Cartografia - Possível localização geográfica do chamado "Éden".
Cartografia – Possível localização geográfica do chamado “Éden”.

Outros especialistas  igualam  o jardim do Éden com a descrição similar de Dilmun antiga.  Dilmun foi provavelmente ilha de  Bahrain,  no golfo Pérsico. Há uma história suméria que narra com propriedade a trajetória de   Enki e Ninhursag.  Descreve um paraíso semelhante ao Éden chamado apenas como Dilmun.

“A terra de  Dilmun é pura, a terra de  Dilmun é limpa; a terra de  Dilmun  é mais brilhante. Em Dilmun o corvo não emite sons de gritos,  fala  ittidu. O som sem lamentos do pássaro  ittidu, o leão não mata, O lobo não arrebata o cordeiro, o doente de olhos não diz “Eu sou doente de olhos,” Os doentes de cabeças não (diz) “Eu sou doente de cabeça”, a velha não (diz) “Eu sou uma velha”, o velho não (diz) “Eu sou um homem velho,” Ele encheu os diques com água , Ele encheu a valas com água, Ele encheu os lugares baldios com água. O jardineiro na poeira na sua alegria (ANET 1969, 38-9).

como você pode ter notado, a história do paraíso na terra, tem origem na suméria antiga. E a figura do querubim? como já explicado, é um ser da religião antiga judaica, um ser vassalo de deus e sua representação é comumente em um bebê alado ou um animal comum, com asas. De qualquer maneira, ainda assim não possui relevância hierárquica, mas sim na aparência. Note que durante o texto que lemos, a aparência daquele querubim é ressaltada em beleza e adornos. Inclusive citando todas as pedras preciosas que faziam parte do vestuário cerimonial dos sacerdotes. E sua posição brilhante subiu ao monte de Deus? Pera! Que monte fica no Éden? O Éden possui montes? Onde? Em que local da Bíblia fala que o Éden possuía um monte, já que ele fica numa planície? Alguns leem essa passagem e se lembram da mitologia grega e de seu monte Olimpo. Mas não há nada além da semelhança. Monte aí, nada mais é que uma figura de linguagem. Representando a soberania do Criador. Soberania que o príncipe de tiro, ou a sua civilização, queriam alcançar. E se tem algo que Deus, no antigo Testamento, deixa claro detestar, é que alguém se ache capaz de igualar-se a ele.

Como resultado houve a condenação que motivou a lamentação de Ezequiel:  “Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: Assim diz o Senhor DEUS: Porquanto o teu coração se elevou e disseste: Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no meio dos mares; e não passas de homem, e não és Deus, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus; Eis que tu és mais sábio que Daniel; e não há segredo algum que se possa esconder de ti. Pela tua sabedoria e pelo teu entendimento alcançaste para ti riquezas, e adquiriste ouro e prata nos teus tesouros. Pela extensão da tua sabedoria no teu comércio aumentaste as tuas riquezas; e eleva-se o teu coração por causa das tuas riquezas; Portanto, assim diz o Senhor DEUS: Porquanto estimas o teu coração, como se fora o coração de Deus, Por isso eis que eu trarei sobre ti estrangeiros, os mais terríveis dentre as nações, os quais desembainharão as suas espadas contra a formosura da tua sabedoria, e mancharão o teu resplendor. Eles te farão descer à cova e morrerás da morte dos traspassados no meio dos mares. Acaso dirás ainda diante daquele que te matar: Eu sou Deus? mas tu és homem, e não Deus, na mão do que te traspassa. Da morte dos incircuncisos morrerás, por mão de estrangeiros, porque eu o falei, diz o Senhor DEUS. Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo”  (Ezequiel 28:2-11).

“querubim cobridor” e “querubim ungido que cobre” se referem à guarda (cobrir, dar cobertura, guardar). Por isso a tradução NVI usa o termo “querubim guardião”. E mais na frente do texto, até mesmo o querubin é meramente uma figura de linguagem para a aparência de tiro, ou de seu governo. Não um querubim real que tenha se rebelado e ser expulso do Éden. Essa analogia é externa ao texto, que é muito claro em usar uma metalinguagem para condenar uma cidade.

Alguns teólogos vão recorrer a explicação de ler a Bíblia com o “Espírito e ler com a carne”. Mas é outra forma muito tendenciosa de reafirmar a sua religiosidade em detrimento ao que a baseia. Quer dizer que pode-se, por meio do Espírito de Deus, pegar qualquer versículo isolado e passar a contar histórias da época da criação ou antes dela, que não aparecem em nenhum texto bíblico, e mesmo assim ser exatamente a verdade dos fatos. Foi isso que os teólogos medievais fizeram quando criaram um lúcifer e o puseram nesses textos. Simplesmente inventaram um personagem que ocupasse um grande número de corporificações do mal. Como dito inúmeras vezes. Se Deus se auto afirma como único, então a igreja busca unificar também o mal.

Isaías  14:12-24.

 

Representação de "lúcifer", em sua forma angelical.
Representação de “lúcifer”, em sua forma angelical.

Mas se lúcifer não existe, o que essa palavra faz no versículo 12 do livro de Isaías, capítulo 14? Boa pergunta caro leitor, pois essa palavra de fato não está lá.

Está é sem dúvidas a mentira mais bem contada da história religiosa. Pode-se dizer que  uma mentira contada muitas vezes se torna verdade.

Mas você pode dizer que isso é uma interpretação equivocada minha. Mas nem é interpretação, mas questão de estar na Bíblia, ou não estar. Para que fique claro, o termo “satanás”  aparece 59 vezes na Bíblia inteira (23 no Antigo Testamento  e 36 no Novo).  Já a palavra ou expressão  “demônio”  37 vezes (no Novo Testamento apenas). Como aprendemos, a  palavra “satanás” é de origem hebraica, enquanto que “diàbolos” (diabo/demônio) é grega. Esse segundo termo foi usado pelos tradutores gregos da Bíblia (LXX) para traduzir nessa língua a palavra hebraica “Satanás”. Ou seja, quando lemos diabo, estamos lendo satanás. E agora a grande pergunta: Quantas vezes a palavra lúcifer aparece? Resposta 0 vezes.

Ora, mas é muito estranho que alguém com tanta relevância na hierarquia celestial, não aparecesse mais vezes. E foi por isso que a Igreja sentiu a necessidade de dar muitos nomes a sua criatura, afim de que ela apareça muitas vezes nos Textos Sagrados. Toda vez que um texto se referir a um homem que se acha superior a Deus, estaria portanto se referindo ao tal lúcifer. Toda vez que uma criatura supostamente angelical, tiver comportamento não condizente com ações divinas, seria o lúcifer dando as caras novamente. Mas se você é um religioso, caro leitor, pode estar se perguntando: “Mas se por que a religião inventou o lúcifer, significaria que ele não exista?” Esta resposta não serei eu a fornecer. Mas segure esta questão por mais uns instantes. Vejamos o que o texto de Isaías diz sobre lúcifer, mesmo que ele não esteja no texto.

Lúcifer é a tradução da Bíblia do Rei Jaime para a palavra em hebraico הֵילֵל em Isaiah 14:12. Esta palavra, transliterada hêlêl ou heylel, aparece apenas uma vez na Bíblia Hebraica e de acordo com a influência da versão do Rei Jaime significa “o brilhante, estrela da manhã, Lúcifer”.A palavra Lúcifer provém da Vulgata, que traduz הֵילֵל como lúcifer, Isaías 14:12 significando “a estrela da manhã, o planeta Vênus”, ou, como um adjetivo, “portador da luz”. O Septuaginta traduz הֵילֵל para grego como ἑωσφόρος (heōsphoros),  um nome, literalmente “o que traz o anoitecer”, para a estrela da manhã. Mas a origem de fato é latina, onde “lux”+“fer”  é literalmente o que porta a luz. Uma palavra colocada deliberadamente a mais no texto original que já tem a versão hebraica para a estrela da manhã, “Heylel-Bem-Sharár”. A ocrrência dupla da palavra na versão latina, mostra que a intenção era por a primeira como sendo um nome, ou substantivo, e a segunda como adjetivo.Mas a estrela da manhã que Isaías está falando, nada tem a ver com a real estrela, o planeta Vênus. Mas alguém que se chamava assim. Especificamente o rei babilônio, que queria dominar a região do norte do Líbano e tinha pretensões de ser Deus – ou maior que Ele-. Esse rei tinha a intenção de tomar o ponto mais alto que eram as montanhas do norte, e com isso Deus o fez cair de um penhasco, ou como descrito em Isaías 14, ele desceu a sepultura (sheol), e com isso ficou conhecido como Estrela Caída. Ou seja, o texto não exprime absolutamente nada sobre o diabo ou satanás,  mas sobre a história babilônica.Isso  se nota meramente lendo o texto. Nem é preciso ser um historiador para tanto. No entanto, um pouco de história faz bem.

Imagem Alegórica para a Babilônia.
Imagem Alegórica para a Babilônia.

Entre 875 a.C. e 608 a.C. as cidades fenícias perderam a sua independência para a Assíria, embora tivessem tentado reconquistá-la através de várias revoltas. Em meados do século VIII a.C. Tiro (isso mesmo, aquela de Ezequiel 28) e Biblos revoltaram-se, mas Tiglate-Pileser III subjugou-as, impondo-lhes pesados tributos. No século VII Sídon (também mencionado por Ezequiel) revoltou-se, tendo sido completamente destruída por Assaradão; os seus habitantes foram escravizados. Sobre as ruínas de Sídon, Assaradão ordenou a construção de uma nova cidade. No fim do século VII a Assíria foi destruída pela nova potência da região, a Babilónia. As revoltas tornaram-se ainda mais comuns durante o período de dominação da Babilónia. Tiro protagonizou uma revolta, tendo resistido durante treze anos ao cerco imposto pelas tropas de Nabucodonosor. O domínio babilônico terminou quando Ciro II conquistou a Babilónia em 539-38 a.C.

Não, você não leu errado. Tanto no caso de Ezequiel, quanto Isaías, referem-se ao exato mesmo ponto geográfico da terra. região do norte do Líbano. Mas na época de Ezequiel, a tirania do líder da cidade de Tiro era muito forte, até que vieram os babilônios e mostraram o que é ser cruel de verdade. Mas não podemos dar ao texto conotações que ele não possui. é uma invenção que Deus falava de uma entidade de mal espiritual superior, quando Deus está falando da maldade superior humana. Leia, sem vícios.

“Como caíste do céu, ó estrela da alva! como estás destruído até a terra, tu que abatias as nações! Tu dizias no teu coração: Subirei ao céu, exaltarei o meu trono acima das estrelas de Deus e sentar-me-ei no monte da congregação nas extremidades do norte. Subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. Todavia serás precipitado para o Cheol, para as extremidades do abismo. Os que te virem, te contemplarão, em ti fitarão os olhos e dirão: Acaso é este o homem que fez estremecer a terra, e tremer os reinos? que tornou o mundo em deserto e destruiu as suas cidades? e que a seus presos não os deixou ir soltos para suas casas? Todos os reis das nações, sim todos eles, dormem com glória, cada um em sua casa. Mas tu és lançado para longe do teu sepulcro como um renovo abominável, coberto com os mortos que são traspassados pela espada e descem às pedras da cova; como um cadáver pisado aos pés. Tu te unirás com eles na sepultura, porque destruíste a tua terra, mataste o teu povo. A semente dos malfeitores não será nomeada para sempre. Preparai uma matança para seus filhos por causa da iniqüidade de seus pais, para que não se levantem e possuam a terra, e encham de cidades a face do mundo. Levantar-me-ei contra eles, diz O Senhor dos exércitos; exterminarei de Babilônia o nome e os sobreviventes, o filho e o neto, diz Javé. Reduzi-la-ei a uma possessão de ouriços e a lagoas de águas, e varrê-la-ei com a vassoura da destruição, diz Javé, Senhor dos exércitos. Jurou o Senhor dos exércitos, dizendo: Deveras como pensei, assim subsistirá.”

 

Apocalipse 12:7-12

O livro das Revelações de João, merece um especial estudo só para ele. Dado os conceitos e seus mistérios. Mas sem me antecipar neste estudo. Vamos tentar falar do dragão; da antiga serpente, descritos neste texto. E se a história já tinha um perfil físico, se já tinha um perfil teólogico e vários nomes por quem chamar, o livro de João lhes dá prontinho nas suas mãos, o diabo.

Lembre-se que a mentira contada muitas vezes…

Se você achou que eu ia começar pelo diabo, errou. Vou começar pelo principal personagem no texto apocalíptico. “Miguel”. Quem é o Arcanjo? 0 (em hebraico: מִיכָאֵל (Micha’el ou Mîkhā’ēl; em grego: Μιχαήλ, Mikhaḗl; em latim: Michael ou Míchaël; em árabe: ميخائيل, Mīkhā’īl) é um arcanjo nas doutrinas religiosas judaicas, cristãs e islâmicas. Os católicos, anglicanos e luteranos se referem a ele como São Miguel Arcanjo ou simplesmente como São Miguel. Os ortodoxos se referem a ele como Texiarca Arcanjo Miguel  ou simplesmente como Arcanjo Miguel.

Mas as poucas vezes em que aparece na Bíblia, ele está sempre em ação. O que porém os cristãos parecem não notar é que Miguel é o Messias. O libertador prometido para os judeus. O líder militar do exército celestial que vence as batalhas contra o mal. É Miguel. Assim, partindo do princípio que Jesus é o messias prometido, logo, Jesus é “como Deus”; ou seja, Jesus é Miguel. Se for tão inteligente quanto creio que seja, verá que tal como diabo, miguel não é um nome, mas uma característica. É o mesmo que dizer: “E houve batalha no céu; Aquele que é  como Deus, e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos…

Tendo isso em mente, considere que todo o cenário é simbólico. Na realidade somos acostumados doutrinariamente, a lermos esse texto e imediatamente assimilar diabo a uma figura específica. Quando na verdade o profeta refere-se ao adjetivo de algo, ou alguém que ocupe a posição de perseguidor da igreja. Fui rápido demais? Deixe-me elucidar.

Estes são os versículos imediatamente anteriores ao do texto que tomamos por exemplo.

E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz. E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas. E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho. E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono. E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias” (Apocalipse 12:1-6).

Repare que  é uma visão do profeta. Ele está olhando um sinal no céu.  Vê uma mulher que está vestida com o Sol. Sob seus pés está a Lua. Em sua cabeça tem uma coroa com 12 estrelas. Ela geme e sente dores pois está para dar a luz. No mesmo instante aparece outra figura no céu. É um dragão vermelho. A figura do dragão tem sete cabeças, cada cabeça, dez chifres e dez coroas. Tão grande e tão cruel. Tanto poder… O dragão move sua calda e arranca do céu um terço das estrelas.  O dragão para em frente a mulher e espera ela dar a luz para devorar seu filho. Aquele que iria ser o Rei de todas as nações. Mas antes que pudesse fazê-lo, Deus imediatamente leva o bebê para junto de Si. A mulher é conduzida ao deserto onde Deus preparou um lugar seguro para ela.

Note, a mulher sai da cena, mas o dragão continua no céu. É nesse momento que acontece a batalha. Aquele que é como Deus, ou traduzido para o português por miguel, lidera seus anjos contra o dragão e os anjos dele. Mas ninguém notou que os anjos aqui não são os anjos de Deus. Pelo menos os teólogos medievais. a confusão nasce nessa sutil mais gigantesca diferença. Para torná-la mais evidente, vamos reescrever o texto sem os vícios de tradução nem as ênfases inexistentes, que foram acrescentadas depois.

“houve batalha no céu; Aquele que é semelhante a Deus, e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, aquele  que acusa, e o  adversário, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite”  (Apocalipse 12:7-10).

Note que tanto a palavra satanás e diabo, são adjetivos do dragão; não o contrário. Pelo que a doutrina medieval ensina. O pofeta está revelando que o dragão seria o satanás, ou o diabo. Mas tanto uma quanto a outra são a mesma coisa. Ora, são apenas os adjetivos do dragão. Também assim o é que “antiga serpente” refere-se a astúcia e a perspicácia. Não está dizendo, como alguns entendem, que se trate da serpente citada no Gênesis (a que tentou Eva). Se você foi atento, aquela serpente era o animal, não uma entidade espiritual. Sua punição foi explicitada. “Então o Senhor Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida”  (Gênesis 3:14) . De outra forma, o simbologismo de João quer relacionar a ardilosa serpente ao dragão de sua visão. Mas ele não fala que tal dragão tenha tentado o homem noÉden. E novamente é o problema de tentar interpretar a Bíblia se permitindo por nela palavras que não possui.

Porque a Mulher seria a Igreja? Segundo todos os estudiosos concordam. Ela, no meio de toda a simbologia de João, mais se adéqua com a figura da igreja. Instituição que começou com doze apóstolos, ou como no simbologismo, 12 estrelas que estão marcada em coroa na cabeça da mulher.

O filho que ela dá a luz seria Jesus? É possível, mas pouco provável. Jesus, que é quem está revelando a João estas visões, poderia estar se referindo a sua segunda vinda. Sim, é uma possibilidade profética. Mas se o conceito for mais amplo, esse filho da igreja pode ser simplesmente uma representação de todos os cristãos. São eles arrebatados para Deus antes que o dragão os alcance. Também é uma possibilidade.

Miguel, como já antecipado, é o próprio Jesus. Que figurativamente enfrenta o inimigo da igreja, o dragão.

E o dragão? Quem seria? Especialistas acreditam que dada a simbologia, caro leitor, seria nada mais, nadamenos que o império Romano. Na época em que Apocalipse, ou revelações, foi escrito, João estava preso sob a dominação romana. Eles já eram perseguidos pelo imperio. E embora alguns ignorem um fato importantíssimo. Esse livro profético diz respeito aos Cristãos que Roma caçava e matava. Era pra tranquilizá-los que João foi visitado pelo Espírito de Deus e orientado a escrever suas palavras. A demais, farei um estudo sobre as profecias de Apocalipse; Vejamos que símbolos os teólogos da idade média ignoraram mas que diz respeito à Roma.

E se depois de tanta informação, você desejar continuar cultuando inversamente um outro deus cujo nome é diabo, é sua liberdade. vivemos graças a Deus, num país livre. Mas pelo menos agora você tem conhecimento suficiente para entender que o ponto chave para interpretar a Bíblia, ou qualquer livro Sagrado, é lê-lo. Não confie no que os ditos, teólogos pregadores dizem. Peça provas, peça opiniões divergentes e paute sua tese em fatos. A Igreja criou uma figura mítica e de oposição a Deus e desprezou totalmente o que significa tudo que a palavra Deus tenta exprimir. Unidade e Soberania. Não pode haver oposição à Luz.

Se a suposta batalha eterna entre luz e trevas existe, a luz vence pelo mero fato de que basta ela existir, para que as trevas deixem de ser.

Dar ao tal diabo, um poder acima de tudo e de todos. É cultuá-lo. Levar pessoas para dentro da Igreja pelo medo do diabo, não é convertê-las. É criar autômatos que uma hora ou outra, vão se rebelar a seus próprios líderes. Desde que o diabo passou a ter corpo e ser tão inteligente ou eterno quanto Deus, as pessoas o buscam entre seus familiares, amigos, companheiros… Em um determinado momento. O diabo é totalmente capaz de realizar boas ações e Deus de cometer as piores crueldades. E os cristãos com essa visão medieval souberam aprimorá-la de tal modo, que uma nova caça às bruxas está se erguendo nos nossos dias. Isso é perigoso para todos que vivem em sociedade.

Se você é cristão, ou tem fé, não se preocupe com o diabo. Deus , certamente não quer que você creia no diabo. A condição para a salvação é crer em Jesus. Leia o Novo Testamento e você entenderá.

Resta uma questão deixada para o final. Se a igreja criou o diabo, como personificação do mau, isso significa que ele não exista? Mas quem disse que ele não existe? Diabo é “acusador”, é “opositor”, é “mentiroso”, ´´e “ardiloso”, é “invejoso”, “entre outros”. Mas não é nossa função procurar um diabo, mas simplesmente não sermos um. Quanto à entidade mitológica lúcifer?, o rei dos caídos?  Essa não existe mesmo. No entanto você ainda pode crer em uma. Fé é fé. Se de fato exista um, que a Bíblia não fala, mas foi criado pela igreja;  o que impede que a Bíblia afirme como verdadeiro  e confirmado pela igreja, mas na realidade nem exista? Pense nisso.

 

E teremos mais dessas revelações em breve. Aguarde  o estudo sobre o Apocalipse. E mais estudos sempre aqui. Não deixe de comentar e compartilhar. Um forte abraço!

 

Karlos Souza

Nascido em Montes Claros/MG em Janeiro de 1987, morador de brasília desde 2004, estudou Letras e literatura, mas sua paixão sempre foi a tecnologia. Fazendo um pouco de tudo, Karlos estudou também teologia e aventurou-se em escatologia. Fora das ciências humanas, também tem como hobby o estudo de astronomia e cosmologia, além de história e ciência política. Mesmo com tantos aspectos aparentemente difusos, ele consegue encontrar harmonia no significado que dá a todos eles e as devidas ligações que constrói para desenvolver seus artigos com base nesses assuntos.Trabalha atualmente na área de atendimento ao cidadão e é editor do blog Celentor.com.