Teoria “Da Vinci Code”: Poderia Jesus ter tido esposa e filhos?

A discussão é polêmica. Para muitos cristãos seria plenamente inconcebível crer que o centro de sua fé, Jesus Cristo, possa ter tido um relacionamento amoroso com qualquer pessoa, chegando ao ponto inclusive de ter tido filhos com ela. O que a obra “O Código Da Vinci” de Dan Brown justamente aborda é que Cristo não só teve um relacionamento amoroso, como ainda gerou uma descendência. Seu livro que mais tarde virou também um sucesso de bilheterias no cinema, conta como uma sociedade secreta lutou através dos séculos para proteger esse segredo combatido e disvirtuado pela Igreja. Mas Dan Brown seria o único a levantar essa questão? E o assunto faz sentido?

A ficção proposta pelo autor norte-americano não é nova. Desde os arianos, classe de cristãos primitivos que acreditavam já no século II d.C. que Jesus era sim um grande profeta, Messias prometido e portador da verdade, mas que isso não o tornava um Deus entre os homens. Que na realidade Cristo era humano, e como tal, passível de toda sorte de qualidades e defeitos humanos. O fato gerou sim rupturas já naquela época. Seitas cristãs confrontantes não aceitavam a visão de um Jesus humano e tentaram tornar qualquer literatura sobre o assunto como herética.

Em 325 d.C., o Imperador Romano convocou o Concilio de Niceia que afirmou como dógma (tese divina irrevogável) de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Santo e consubstancial com o Pai. Tudo o que afirmasse portanto o contrário seria automaticamente considerado como obras não inspiradas por Deus. Embora muitos teólogos digam que  a reunião havida em niceia não tivesse sido a que reuniu e debateu o Canon Bíblico do Novo Testamento, sem dúvidas foi ela que legitimou os livros que conhecemos como canônicos, e tornou apócrifos todos os que diziam conceitos acerca de um Jesus humano.

Caberia a cada um se perguntar, Jesus Cristo seria menos do que foi tendo sido Pai e um marido amoroso?

Para alguns teóricos da conspiração os chamados livros gnósticos, toda a literatura baseada  na vida e ministério de jesus Cristo, Apóstolos, profetas e demais contemporâneos, que não foram considerados pela Igreja como inspirados,  tais obras guardam evidências muito claras de que Cristo não só era uma pessoa comum, como também teria tido um relacionamento firme e romântico com uma personagem estigmatizada pela igreja como ex-prostituta, Maria Madalena, ou Maria de Magdala.

Na obra de Dan Brown, o relacionamento é posto de modo a considerar que Jesus e Madalena haviam tido filhos, e que sua descendência fora protegida, dando origem a uma linhagem real que perduraria até os dias de hoje. Na obra, baseada em mitos, Madalena, após a crucificação de Cristo, teria fugido com auxílio de seguidores do Messias, para a Gália, antiga França, onde firmou moradia até seus últimos dias. Lá ela teria dado a luz a uma menininha que era a filha legítima de Jesus Cristo, primeira de sua linhagem real.

Contudo, essa parte do mito não possui base sólida. Ela não passa de conjecturas alegóricas de teóricos da conspiração. Ja o relacionamento entre Maria e Jesus, nos livros gnósticos como o suposto livro de Maria Madalena, o Evangelho de Felipe, entre outros, a polêmica se acende como nunca. Segundo os textos, Madalena é uma discípula atuante o tempo inteiro. Ela é a mais amada pelo Salvador.

“e a consorte de Cristo é Maria Madalena. O [senhor amava Maria] mais que todos os discípulos, e ele a beijava na [boca muitas vezes]” (Evangelho de Felipe, tradução de  Ehrman, 2003: 42).

Acaso Leonardo Da Vinci de fato acreditava no “Código Da Vinci”?

Em “O Código Da Vinci”, vemos um Leonardo da Vinci que não só acreditava em coisas assim, como também que teria escondido mensagens subliminares em suas obras para ao arrepio dos dógmas católicos, promover o casamento entre Jesus e Madalena. A obra mais debatida até hoje é o quadro “A última Ceia”, que foi pintada por Leonardo entre 1495e1498 para seu protetor, o  Duque  Lodovico Sforza.

Leonardo di Ser Piero da Vinci (Loudspeaker.svg? pron.), ou simplesmente Leonardo da Vinci (Anchiano, 15 de abril de 1452 — Amboise, 2 de maio de 1519), foi um polímata nascido na atual Itália,  uma das figuras mais importantes do Alto Renascimento, que se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. É ainda conhecido como o percursor da aviação e da balística. Leonardo frequentemente foi descrito como o arquétipo do homem do Renascimento, alguém cuja curiosidade insaciável era igualada apenas pela sua capacidade de invenção. É considerado um dos maiores pintores de todos os tempos e como possivelmente a pessoa dotada de talentos mais diversos a ter vivido. Segundo a historiadora de arte Helen Gardner, a profundidade e o alcance de seus interesses não tiveram precedentes e sua mente e personalidade parecem sobre-humanos para nós, e o homem em si [nos parece] misterioso e distante.

sim, de fato Da Vinci inseriu conhecimentos ocultos e opiniões políticas suas em obras de sua autoria, mas ele, ao contrário do que a obra de Dan Brown diz, não liderou nenhuma sociedade secreta. Até onde se sabe da vida de Leonardo, ele nem tinha tempo para liderar qualquer coisa, dadas as enormes quantidades de atividades as quais o gênio do conhecimento se dedicava diuturnamente.

É possível que o quadro “A última Ceia” pode guardar uma crença de Da Vinci de que jesus e Madalena eram um casal?

Afresco de Leonardo Da Vinci, "A Última Ceia" Restaurado (Reprodução).
Afresco de Leonardo Da Vinci, “A Última Ceia” Restaurado (Reprodução).

Basta olhar para o quadro e ver que não só pode, como é muito possível que a obra inteira seja uma crítica direcionada para a igreja. Hoje,  a retratação da última ceia que fora pintada por Da Vinci está no convento dominicano de Santa Maria delle Grazie, em Milão (Itália). Com um tamanho de pouco mais de 40 metros quadrados, inúmeros especialistas e historiadores a consideram um dos melhores quadros de todos os tempos. Os apóstolos estão em grupos de três, deixando Jesus no centro. Bartolomeu, Tiago Menor e André, Judas Iscariotes, com cabelos e barbas negras, Simão Pedro, de cabelos e barbas brancas e João, o único sem barba. Então, Tomé, Tiago Maior e Filipe, sem barba. Mateus, Tadeu e Simão, o Zelote, como os últimos três.

 

Basta olhar para o afresco e perceber a evidente ausência de um cálice. Segundo a Bíblia, o momento retratado fora o exato instante em que Cristo teria partido o pão e consagrado o vinho. Mas Da Vinci parece ter esquecido propositalmente disso. As posições dos discípulos também revelam fatos interessantes. Quem olha para o quadro por alto, imagina observar 13 homens, mas para olhos atentos, na realidade percebe uma clara figura feminina à direita de Jesus.

Corte extraído do quadro “A Última Ceia” de Leonardo Da Vinci, mostra figura que formalmente é atribuída como João Evangelista.

Essa seria, segundo muitos teóricos, a imagem de Madalena na visão de Leonardo. Os traços suaves, os seios discretos e as mãos delicadas, para quem olha atentamente, vê se que ela distoa da obra toda.

Ao lado da figura, está Pedro, o único em toda cena que está com uma espécie de arma. Pedro, de barba branca segura uma faca. Olhando de forma ameaçadora para a suposta Madalena, o primeiro Papa parece colocá-la em um perigo eminente. Ameaçadoramente com a faca na mão direita, e uma outra mão que não se sabe se pertence a ele ou não, se posiciona rente ao pescoço da figura que supõe-se como Madalena. Fazendo parecer que pretende decapitá-la.

 

Corte extraído de “A Última Ceia” de Leonardo Da Vinci, mostra o Apóstolo Pedro supostamente ameaçando a figura feminina ao seu lado.

Lendo as descrições dos livros não considerados canônicos, é evidente que Pedro tem um sentimento claro de rivalidade com Madalena. Ele tem ciúmes pelo status de maturidade teológica da discípula e as brigas entre eles são constantes. Seria possível que Leonardo conhecesse esses detalhes dos livros gnósticos e talvez ter inserido na sua obra para justamente atacar a Igreja? E o que dizer quando as imagens de Jesus e de Madalena são trocadas de posição dentro do quadro?

Se Jesus Cristo e Maria Madalena tiveram qualquer tipo de relacionamento, seria tão impossível categorizar como também é a existência de Jesus, contudo, a possibilidade de rtal fato precisa sim ser questionada. A Obra de Dan Brown é ficcional sim. Porém no âmago de suas páginas romanceadas, há de se debater os conceitos fundamentais que foram combatidos e reprimidos durante séculos pela Igreja.

Hoje, com uma teologia fundamentada e pouco aberta a debate, é muito difícil abrir-se a possibilidade de levar pontos abordados nos livros gnósticos como passíveis de serem tão realidade, como crê-se também serem os livros ditos canônicos.  Falarei muito ainda sobre alguns debates teológicos que a Igreja prefere manter quieto. Mas tudo com base histórica e referenciada. Por hora, sugiro uma boa leitura, de “o Código Da Vinci“, um livro  já antigo,mas  que merece sim ser lido pelo que é ainda atual.

Karlos Souza

Nascido em Montes Claros/MG em Janeiro de 1987, morador de brasília desde 2004, estudou Letras e literatura, mas sua paixão sempre foi a tecnologia. Fazendo um pouco de tudo, Karlos estudou também teologia e aventurou-se em escatologia. Fora das ciências humanas, também tem como hobby o estudo de astronomia e cosmologia, além de história e ciência política. Mesmo com tantos aspectos aparentemente difusos, ele consegue encontrar harmonia no significado que dá a todos eles e as devidas ligações que constrói para desenvolver seus artigos com base nesses assuntos.Trabalha atualmente na área de atendimento ao cidadão e é editor do blog Celentor.com.