Intolerância religiosa é moda no Brasil: Agenor Duque ofende Católicos zombando de Nossa Senhora Aparecida

Lamentavelmente a intolerância religiosa é algo visto como normal e aceitável por um crescente grupo de pessoas no Brasil e no mundo. Principalmente quem é adepto de uma certa maioria, aqueles que podem concordar com o preconceituoso. Comumente, a discriminação e a ofensa só doem quando direcionados a nós, não é mesmo? Não deveria ser assim, pelo menos não para os que se dizem cristãos. Uma vez que toda a fé cristã tem como um dos seus principais fundamentos o amor ao próximo, logo imediatamente após o amor ao seu Criador, haveria de se importar sim com o resultado de uma agressão simbólica ào próximo, como se fosse uma agressão a si. Amar o semelhante é respeitá-lo, ainda que discorde dele. Agenor Duque, o que se auto proclama apóstolo, líder de uma igreja por ele fundada chamada de Igreja Apostólica da Plenitude do Trono de Deus, com sede em São Paulo, teve vídeo onde zomba de Nossa Senhora Aparecida, santa de grande importância aos Católicos brasileiros, e a compara com uma garrafa de Coca-Cola.

O vídeo não é muito recente, mas foi viralizado na internet após ser vinculado no YouTube. Na gravação de um culto que teria sido transmitido pela TV, o religioso conclama pessoas fiéis não evangélicos a abandonarem sua religião, jogarem fora as imagens de santos e aderirem à sua igreja, com a possibilidade de receberem curas, inclusive de câncer.

É esperado que tal vídeo gere revolta,e  assim o foi. A publicação gerou reações em repúdio tanto da comunidade católica, quanto de demais religiões, inclusive dentro da própria igreja evangélica no Brasil. Todos os que se manifestaram contra a atitude do auto-intitulado apóstolo,  ressaltaram a falta de bom senso desse ato desnecessário.

Mais do que um ato moralmente questionável, isso pode incorrer num crime constitucional, caso um juiz entenda desse modo. Isso porque é crime no Brasil atacar liturgia religiosa, símbolos religiosos ou mesmo chacota contra eles. A Constituição brasileira de 1988 diz:

Art. 5º, VI – é inviolável a liberdade de consciência religiosa e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias;

E como é necessário lei para regulamentar, no Código Penal, foi promulgada a norma:

Art. 208, do Código Penal: Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou pratica de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso Pena – detenção, de 1 (um) mês a 1 (um) ano, ou multa.

Duque não é bobo. Ele não usou a imagem de Nossa Senhora Aparecida para não ser enquadrado na lei. Mas usou de metáfora, o que de certo modo, uma interpretação forçada pode fazê-lo responder.

Ao meu ver ele foi tremendamente preconceituoso e intolerante com a fé alheia. Isso é um fato. Sem o mínimo respeito pela doutrina que não é a sua, ele poderia ter convidado os fiéis de outra religião sem atacar a fé deles, mas ele optou pelo desdenho. Chamou Nossa Senhora Aparecida de “deusa”, isso possivelmente devido a uma interpretação muito comum dentre certas vertentes evangélicas para com a prática católica de veneração ás imagens de santos. Comparam as imagens dos santos católicos com as imagens de deuses antigos que eram alvo de adoração, condenado por Deus nos textos do antigo Testamento da Bíblia.

Não é novo, mas dentre muitas diferenças da doutrina evangélica para a católica, a veneração ás imagens é uma das mais evidentes. Para os evangélicos, o culto às imagens é idolatria, prática abominável na Bíblia. Para os católicos, é tão somente uma maneira de focalizar a mente na figura do santo de sua devoção, no próprio jesus Cristo, ou em sua mãe, Maria. Seja como for, tudo iria muito bem se cada um pudesse vivenciar sua fé com liberdade e sem ataques. Porém alguns tem extrema dificuldade em permitir que o outro discorde deles.

No discurso de Duque, ele usa uma fraseologia que fora exaustivamente discutido entre teólogos  e já  vencida, que é baseada em um texto do Antigo testamento : “Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos dos homens. Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não vêem. Têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas não apalpam; pés têm, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta. A eles se tornem semelhantes os que os fazem, assim como todos os que neles confiam” Salmos 115:4-8). Tenta assemelhar a prática de povos antigos que acreditavam que os deuses poderiam falar por meio de suas imagens seja por incorporação, seja por meio de atos milagrosos, com a fé católica que nada tem coma  imagem em si.

Para o católico que reza em frente a uma imagem, sua mente concentra-se no santo. Ele sabe que o santo em si está no céu, não ali na imagem. Sabe inclusive que a imagem é meramente um objeto, como a  Bíblia é um objeto. Os textos contidos no livro são sagrados para o Evangélico, nem por isso ele entende seu fascínio pelo livro como idolatria. É  mais simples tentar assemelhar a veneração dos fiéis católicos aos santos, com a idolatria da antiguidade.

Contudo, como para o evangélico o livro bíblico de certo modo é sagrado por conter nele escrito textos que ele considera santos, assim as imagens de um santo, de Nossa Senhora Aparecida, que é a representação em tom de pele negra da mãe de Cristo, uma das poucas representações assim no mundo católico,  ou de Jesus, para os católicos também são sagrados por guardarem a imagem de entidades sagradas. Em uma explicação mais simples, rasgar a foto de um desconhecido é simples, mas rasgar a foto de sua mãe, de seu pai, é simples? Isso é idolatria á imagem de seu ente familiar?

Como vê caro leitor, há necessidade de agredir o catolicismo em uma prática de sua doutrina que em nada interfere na vida de Agenor Duque? Não, não há. O que existe é a necessidade de aprender-se a tolerar o outro.

O sentimento religioso nos países latino é parte forte de sua cultura e da formação social dessas pessoas. Agredir a fé de alguém é quase como agredir a própria pessoa. Quando se pode ser evitado, por que não evitar?

Sou um duro crítico de práticas religiosas que eu considero equívocas, mas minhas críticas são respeitosas e com argumentos filosóficos e científicos, que beiram longe da chacota e do escárnio. Posso eventualmente discordar totalmente de você, mas é minha obrigação respeitá-lo. Isso por que é seu total direito de cultuar seu Deus da maneira como achar pertinente, ou mesmo de manter-se não religioso, ou mesmo ateu, semq ue sua dignidade ou filosofia de vida sejam atacadas.

Quanto ao suposto cristão, agenor Duque, esse pode liderar centenas de pessoas, mas ainda precisa conhecer o cristianismo, ou pelo menos ter um pouco mais de educação, antes de vomitar palavras de ódio e preconceito.

 

Karlos Souza

Nascido em Montes Claros/MG em Janeiro de 1987, morador de brasília desde 2004, estudou Letras e literatura, mas sua paixão sempre foi a tecnologia. Fazendo um pouco de tudo, Karlos estudou também teologia e aventurou-se em escatologia. Fora das ciências humanas, também tem como hobby o estudo de astronomia e cosmologia, além de história e ciência política. Mesmo com tantos aspectos aparentemente difusos, ele consegue encontrar harmonia no significado que dá a todos eles e as devidas ligações que constrói para desenvolver seus artigos com base nesses assuntos.Trabalha atualmente na área de atendimento ao cidadão e é editor do blog Celentor.com.